Avançar para o conteúdo principal

Olho Invejável

O sábado passado foi dedicado à fotografia.

O pai do J. é homem de máquina em riste e, por acaso, é bom mas bom na cena. Bem, não é por acaso, é porque ele tem um olho invejável. Este homem vê para lá do que nós, comuns mortais, vemos. E depois fotografa o que vê, o que é óptimo para ceguinhas como eu que, geralmente, não vêem nada.
Além do olho, o homem tem mais umas tantas coisas que me enchem de orgulho de ser este o pai que calhou ao J. (e o homem que me calhou a mim), mas não as vou discriminar aqui. Primeiro, porque não gosto de ajudar a concorrência a crescer, depois porque atiraria este post para a categoria porno-coisa e teria de pôr uma bolinha vermelha no canto superior direito, coisa que, como exímia "lerdinha das informáticas", não sei fazer. (Se o soubesse também não adiantaria muito, pois o header é vermelho e a bela da bolinha nem se veria). Adiante.

Voltando ao sábado passado, a razão de paparmos quase tudo o que é fotografia deve-se ao facto do pai do J. ter este olho invejável e consumir doses altas de fotografia. Tenho quase a certeza que, se ele não tivesse este olho invejável não consumiria tanta fotografia e se não consumisse tanta fotografia, nós não teríamos a oportunidade de papar tantas exposições quanto as que papamos.
O pior disto tudo é que nós também já começámos a ficar viciados na coisa e não vamos ver as exposições, com ar de seca, só para o acompanhar, vamos porque também gostamos e porque isso passou a ser um prazer também para nós. Ora bolas que já não há quem controle a gulodice nesta casa!

Voltando ao sábado (que estou sempre a perdê-lo), fomos ver a exposição Modernidades: Fotografia Brasileira à Gulbenkian, depois à Cordoaria Nacional, ver a Génesis do Sebastião Salgado e acabámos em beleza a ver, no cinema, o documentário O Sal da Terra de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre o mesmo Sebastião Salgado. Foi óptimo! Uma barrigada de fotografias belíssimas e poderosíssimas. No entanto, uma dinheirama... (Neste país, se o povo quer ser culto, tem de pagar bem, quiçá deixar de comer para se poder cultivar. O que vale é que no fim de um dia assim sentimo-nos tão preenchidos que esquecemos a fome. Digo eu para amenizar a coisa e evitar pôr-me aqui a chamar nomes a essa maltinha ranhosa do governo!

Mensagens populares deste blogue

Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva.
Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada.

Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo.
Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas.
Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando.
E voltei a sonhar sem comprimidos.

Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que ele vá…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…