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E Ainda Dizem que os Aliens Não Existem...

O meu miúdo tem andado meio estranho. De manhã, quando acorda, tem vómitos. Depois passa-lhe e não tem mais durante todo o dia. 
Fui com ele ao médico que isto de o ver sofrer, por mais leve que seja, dá-me a volta ao estômago e aperta-me o peito. Tento fingir que não, que sou forte e muito racional, mas a verdade é que me apetece ir logo com ele ao médico em completo histerismo. A sorte é que a minha mãe faz esse papel da histérica mais rápido do que eu, o que me dá algum espaço de manobra para me armar em racional.
Foi o papel da racional e ponderada que encarnei durante duas semanas em que experimentámos tudo: mudámos de pequeno-almoço, tomou-o mais tarde, não lavou os dentes a seguir a comer, lavou os dentes antes de comer, não lavou os dentes de todo, jantou mais cedo no dia anterior, dormiu de cabeceira levantada, etc., etc. Depois destas experiências, do miúdo continuar com vómitos e de eu já poder ser histérica de consciência tranquila, fomos mesmo ao médico que lhe passou análises. Por causa delas, hoje fomos tirar sangue. 
O miúdo é um corajoso nestas coisas e foi impecável. A parte do sangue a sair foi serena, o problema foi a papelada e... comigo, claro.
Ok, eu sou uma chata, eu sei, mas há princípios que não largo, o que é que querem? 
A minha chatice de hoje foi no final da senhora receber a credencial e registar o que tinha a registar, no momento em que entregou um papel ao meu miúdo para ele assinar. Mal sabia ela o que estava a fazer... 
Perguntei se podia ser eu a assinar.
- Ah... ah... sim, mas tem que pôr o número do BI... Se for ele é mais fácil. 
- Ok, eu ponho o número do BI. Assino eu que ele não tem idade para ser responsável. Deixemo-lo aproveitar enquanto pode - respondi com meio sorriso.
- Mas não tem a ver com responsabilidade... Basta assinar - insistiu a senhora.
- Ok, assino eu. Quando ele tiver idade, ele assina.
- Temos que os deixar crescer... E eles até gostam de ser eles a assinar...
- Sim, mas é uma questão de princípios como outra qualquer, prefiro ser eu a assinar.
Assinei, pus o malvado do número do BI que custa tanto a pôr e fomos tirar sangue. A senhora e restantes clientes trocaram olhares cúmplices como quem diz "esta é maluquinha, ainda se agarra a essas porcarias chamadas princípios... dá tanto mais trabalho pôr o número do BI do que fazer como manda a burocracia..."
Fomos embora com a etiqueta de aliens colada às costas e o J. não esperou muito para me perguntar porque não o tinha deixado assinar. Também quis saber se eu achava que ele tinha sido totó por estar prestes a assinar quando a senhora lhe tinha dado a caneta e dito para ele o fazer.
Disse-lhe que não o achava nada totó e que era normalíssimo ele aceitar assinar já que a senhora lhe tinha dito para o fazer e expliquei-lhe que tinha insistido para ser eu, porque assinar um documento é responsabilizarmo-nos por ele, é um acto de cidadania em que pomos o nosso nome por baixo daquilo que lemos e aceitamos e que ele ainda tem dez anos, por isso não tem responsabilidade para o fazer e nem precisa preocupar-se com isso. Disse-lhe ainda que, quando ele tiver idade para isso, ele assinará as coisas dele com a devida responsabilidade sobre aquilo que assina e não porque gosta de brincar aos adultos como a senhora disse que os miúdos gostam de fazer. Ainda me perguntou se estava chateada. Disse-lhe que mais ou menos, que estas coisas me irritavam um bocado, mas que não era nada com ele.

Sinceramente, acho a assinatura de documentos uma coisa muito importante e que se a passarmos às crianças como uma brincadeira, elas crescerão a pensar que não tem qualquer importância e não se responsabilizarão por aquilo que assinam. 
Ao contrário do que a senhora disse, deixo o meu filho crescer, mas dou-lhe espaço e tempo para isso, porque quero que ele quando tiver que se responsabilizar pelas coisas se responsabilize mesmo e não ande por aí a fingir que é muito consciencioso com coisas que não faz a mínima ideia do que são e, como algumas pessoas que vejo, finja que sabe o que anda a fazer. Quero que ele saiba mesmo, mas no tempo devido, não cedo demais e só porque me dá mais trabalho.

Sim, esta porcaria dos princípios que os aliens têm a mania de usar não os deixa agir como lhes mandam, feitos autómatos. É coisa para os fazer pensar um bocado, mesmo naquilo que, à partida, parece uma insignificância. Sim, dá algum trabalho e isso é chato e aborrece os terrestres que são seres muito atarefados e não têm tempo para andar por aí a pôr o número do BI em tudo o que é papel.

Temos pena, vão para Marte!

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