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#5 Excertos de Uma Coisa Qualquer (Continuação Inventada do 1º Parágrafo da "Metamorfose" do Kafka)

Não estava habituado a ser insecto. Geralmente, acordava cão ou gato. Em tempos, acordara peixe e tivera que saltar para a banheira cheia de água tal fora a agonia que sentira por não conseguir respirar. Acordar insecto era uma novidade. As dificuldades de locomoção eram enormes já que tinha a mania de dormir de barriga para cima e fora assim que acordara. A desproporção entre o corpo e as perninhas minúsculas que se agitavam no ar impedia que Gregor rodasse sobre si próprio de forma a adoptar uma posição que lhe permitisse andar. Este obstáculo era novidade, pois os cães e os gatos em que se tornara anteriormente tinham corpos de dimensões mais harmoniosas, uma maior agilidade e quatro patas em vez de seis. À partida, podia parecer que mais patas significaria maior facilidade de locomoção, mas o facto mostrara-se completamente o oposto: mais patas só incomodavam.
Gregor era exímio em transformar-se em animal pela manhã. Deitava-se humano, não muito humano, é certo, mas semelhante a um e acordava animal. Passava todo o dia na forma do animal em que acordara e à noite, já tarde, voltava a assemelhar-se a um humano. Estas sucessivas metamorfoses diárias tinham-no provido da capacidade de se adaptar a qualquer tipo de alteração que se lhe atravessasse pelo caminho. O primeiro desafio daquele dia seria arranjar um modo de sair da cama.
Na esperança de que as três perninhas de um dos lados tocassem a cama e se lhe agarrassem com força suficiente para o virar, balançou o corpo. Balançou-o uma vez, duas vezes, três vezes sem sucesso. As perninhas de insecto mostraram-se a maior inutilidade que lhe tinha surgido durante esta odisseia animalesca.

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"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…