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Silêncio das Mãos

Há tempos que não escrevo. Há tempos que não escrevo nada.
É como se tivesse uma mão a tapar-me a boca com coisas a querer sair que esbarram nela.
Tenho coisas para dizer. Mas não digo. Limito-me a um silêncio que não conheço. Este da não escrita, da mão quieta e silenciosa.
Tenho mãos com muito para dizer. Boca não. Digo poucas coisas pela boca. Digo só aos meus, aos íntimos. Às vezes, de rompante. Às vezes, magoo com as palavras que me saem da boca.
A minha boca é íntima como os meus. Tão íntima que não gosto de beijos a estranhos. Nem os que a cordialidade obriga. Chega-me a mão que aperta a outra. Ou diz "bom dia", ou diz outras coisas.
Tenho uma boca que se cala para dar voz às mãos. Sim, às mãos, que já não se escreve só com uma. Escreve-se com as duas. Estão inquietas, as minhas. Loucas para dizer coisas e cansadas de se calarem.
Hoje, as minhas mãos precisam de gritar bem alto que não são mudas e que precisam de dizer

coisas.

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