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Alô, Alô, Terra Chama Bebé!

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Quando o meu filho nasceu, ficou a dormir quase dois dias. O miúdo vinha cansado, o que é que se pode fazer? 
Eu também teria dormido, que esta história de parto é cansativa que se farta, mas pus-me a chorar. As hormonas, ainda aos saltos, encheram-me de tristezas e o vazio do ventre subiu-me à cabeça. Mal me levaram o filho, depois de mo terem pousado sobre o peito, o vazio instalou-se. Aquele pequeno ser, que há tão poucos minutos se tinha materializado em bebé, tinha acabado de me abandonar depois de oito meses e meio em permanente presença. Como poderia eu gerir aquela sensação de abandono, juntamente com a percepção de que aquele peso na barriga que não me deixava ver os pés era, afinal, um bebé? Como poderia eu gerir o facto de ter tido um filho e terem-mo levado assim, sem mais nem menos, enquanto as hormonas me gritavam coisas más aos ouvidos?
Quando mo devolveram, trouxeram um bebé adormecido. Aquele bichinho chorão que eu havia visto por breves instantes após irromper por mim afora, era agora um bebé tranquilo, tão tranquilo que não acordava por nada. E eu, sempre em plena luta com as hormonas, chorava. Ele dormia e eu chorava. Eu chorava e ele dormia. O miúdo dormia tanto que as enfermeiras não o largavam, ora a medir a glicose através de picadas nos seus pequeninos dedos dos pés, ora a dobrá-lo e a contorcê-lo para que acordasse. Mas ele nada. Não queria saber de enfermeiras malvadas nem daquela mãe que lhe calhou na sorte (bem mais tranquila vista de dentro) que agora só chorava. Deve ter pensado que, para aturar aquela gente, mais valia não ter nascido e ter ficado no quentinho a ouvir as piadas de uma voz que lhe falava de vez em quando e o chamava à Terra. "Alô, alô, Terra chama bebé! Alô, alô, Terra chama bebé! Escuto. Escuto." E ele dava-lhe um pontapé no ouvido encostado à barriga, ao que a voz, em vez de chateada, ficava contente. Devia desconfiar que aquela voz continuava por ali, mas como não dizia tantas piadas e a mãe chorava em vez rir, preferia dormir. E dormia.

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E eu continuava a chorar. Olhava para ele e chorava. Chorava pelo vazio, pela impotência, pela dependência que aquele ser tinha de mim. De mim que me sentia incompetente para tamanha responsabilidade, de mim que não sabia tratar de bebés. Chorava por não lhe saber dar de mamar, mudar fraldas, dar banho, vestir ou despir. E porque me tinham entregado um bebé adormecido e eu não fazia a mínima ideia do que era suposto fazer-lhe. 
E também chorava por ele não acordar. Precisava de um bebé desperto, que me pedisse para mamar, que refilasse por ter a fralda molhada, que demonstrasse desconforto para me obrigar a interagir com ele. Mas ele não. Ele dormia numa calma perene. Parecia que o embalo daquele sono era tudo o que precisava. Como poderia eu querer invadir a serenidade que o meu bebé já trazia? Não podia. Por isso, olhava-o e pensava "é tão lindo o meu bebé!" e chorava.

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