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Viagem pela Solidariedade

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Ontem, andava eu e o meu pimpolho de carro pela terrinha quando avistámos um senhor com ar de sem-abrigo que houvéramos visto umas horas antes pela primeira vez. Ao constatar isto, disse ao pimpolho:
- Olha, não é aquele senhor que vimos há bocado a apanhar qualquer coisa do chão?
- É!
- Deve ser um novo sem-abrigo aqui, nunca o tinha visto. É incrível como cada vez há mais... Esta terra teve momentos em que não tinha nenhum e agora há tantos...
- Ele apanhou o saco e deitou-o no lixo.
- Foi? Não reparei, como fui buscar o bilhete do estacionamento, deixei de olhar para ele.
- O senhor é tão magrinho, não é, mãe?
- É, J.. Faz-me muita impressão estas pessoas assim, sem casa e a passar fome. Apetecia-me fazer mais qualquer coisa por elas.
- Porque não fazes?
- Não sei, talvez por fraqueza. Acho que, se me aproximar delas, envolvo-me muito e apetece-me dar-lhes mais dinheiro do que aquele que posso dar. Além de sofrer muito intensamente os problemas dos outros e, tenho medo, de acabar por ser mais um estorvo do que uma ajuda. De desatar a chorar com elas em vez de as ajudar. Se calhar, é um bocado egoísmo da minha parte não fazer nada. Acaba por ser para me proteger. Se calhar não, é mesmo egoísmo.
- Pois é, mãe, por isso podias tentar... Como estás desempregada podias tentar ajudá-los e assim fazias coisas não só para ti, mas também para os outros. Vá lá, mãe!
- Vou pensar nisso com carinho.
- Mas, pelo menos, vamos fazer aquela coisa do IRS, não vamos?
- Não sei, J., estava a pensar fazer isso para a Acreditar.
- O que é a Acreditar?
- É uma instituição que dá apoio a crianças com cancro.
- Só às crianças?
- Sim. 
- As crianças também têm cancro? Onde? Assim como tu tiveste, têm aquela coisa de cair o cabelo?
- Sim, também têm. A mim não me caiu o cabelo todo. O cancro pode ser, mais ou menos, em qualquer parte do corpo. E o cabelo não cai com o cancro, já te expliquei, cai com os medicamentos para o tratar.
- Sim, ok, mas o cabelo cai...
- Mas não é com a doença, é com os tratamentos. Nem sempre cai ou nem sempre cai todo. E quando cai, depois cresce outra vez.
- O que é que se sente? Com o cancro?
- Os sintomas diferem consoante o tipo de cancro, mas na maioria deles as pessoas sentem cansaço, suores frios nocturnos e, às vezes, têm febre.
- Tu tiveste isso tudo?
- Sim, menos a febre.
- É por isso que queres fazer isso do IRS para essa instituição? Por teres tido cancro?
- É, e acho importante apoiar-se as crianças que estão a passar por ele. Estava a pensar nesta instituição, mas tenho que falar com o pai primeiro, o IRS é dos dois.
- E para os sem-abrigo?
- Acho que só dá para uma instituição, mas vou ver.

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O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
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Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Tenho uma tatuagem no meio do peito

Ontem, no elevador, olhei ao espelho o meu peito que espreitava pelo decote em bico da camisola, e vi-a. "Tenho uma tatuagem no meio do peito", pensei. Geralmente, não a vejo. Faz parte de mim, há dez anos, aquele pontinho meio azulado. Já quase invisível aos meus olhos, pelo contrário, ontem, olhei-a com atenção, porque o tempo já me separa do dia em que ma fizeram e me deixa olhá-la sem ressentimentos. À tatuagem como à cicatriz que trago no pescoço.

A cicatriz foi para tirar o gânglio que confirmou o linfoma. Lembro-me do médico me dizer "vamos fazer uma cicatriz bonitinha. Ainda é nova e vamos conseguir escondê-la na dobra do pescoço. Vai ver que quase não se vai notar". Naquela altura pouco me importava se se ia notar. Entreguei o meu corpo aos médicos como o entrego ao meu homem quando fazemos amor.
"Façam o que quiserem desde que me mantenham viva", pensava. "Cortem e cosam à vontade! Que interessa a estética de um corpo se ele está a morrer?!…

Facebook lovers

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva …