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Pílula da Estupidez

Detesto ideias preconcebidas e generalizações.
Ou é para me irritar ou não sei porque raio de carga de água é que é o que mais há por aí.
Gente que pensa que, lá porque dois ou três cromos passaram a professar umas teorias da treta como se fossem religião, tudo o que não seja dito pelos cromos é pura alucinação, e que tem sempre pronta uma pílula de uma ideia qualquer que está na moda e de que toda a gente já ouviu falar milhentas vezes, deixa-me para lá de enervada. Dá-me vontade de lhes enfiar a própria pílula pelas goelas abaixo e perguntar "então, estás muito mudado? A pílula fez-te melhorar alguma coisinha? Népia, pá, continuas o mesmo otário!".
Dá-me a impressão que ando rodeada de papagaios que papagueiam todas as patacoadas que lhes impingem.
Ei, pessoal, e usar a cabecinha, hã? E deixar de engolir toda e qualquer informação como se fossem verdades universais sem sequer as processarem?
O cérebro está lá para alguma coisa, não serve só para memorizar, também se pode usar para destrinçar aquilo que é verdadeiro daquilo que é falso; Para separar o trigo do joio; Para deitar fora aquilo que não presta e reter o que interessa; Para descobrir os diamantes no meio da areia.

Fiz-me entender ou querem que faça um desenho? Hã?

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Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


#metoo ou eu também já vi muita coisa

Já fui bastante assediada, especialmente até aos trinta, trinta e poucos. Acho que, por isso, fui desenvolvendo uma capacidade que me permite notar situações de assédio, ou de simples interesse sexual, à distância. Não só quando sou eu a visada, mas também quando são outras pessoas. Normalmente, reparo no(a) assediador(a) e no(a) assediado(a).

Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo quando eu tinha uns quinze ou dezasseis anos.
Nessa altura eu frequentava amiúde as matinés de uma discoteca aqui da terra. Era miúda e era assim que passávamos as tardes chatas de domingo.
Um dia estava com uma amiga à porta da dita discoteca e houve um puto, mais ou menos da minha idade, que me fez uma proposta: pagava-me uma bebida lá dentro se eu curtisse com ele naquela tarde. Eu, que durante a adolescência tinha fama de antipática e petulante (creio que esta última característica se devia essencialmente à minha altura e timidez que, juntas, me faziam parecer uma pessoa petulante), mandei-o à…

Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva.
Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada.

Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo.
Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas.
Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando.
E voltei a sonhar sem comprimidos.

Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que ele vá…

O barulho das fraldas

O meu filho já me passou em altura. Pouso a cabeça no seu ombro sem a baixar. Olho-o nos olhos de frente, como a um adulto. As longas pernas, agora com pêlos a tornarem-se escuros, são as mesmas que, em tempos, ainda não andavam e se mexiam em simultâneo com os braços, enquanto lhe mudava a fralda.
É um homem aquele bebé que viveu em mim oito meses e pouco e que deu um grito quando me saiu das entranhas. Um homem que enche a cama e a quem vou, à noite, tapar os pés que teimam em sair debaixo dos lençóis.
É um homem o bebé que, nas manhãs de fins-de-semana, se vem deitar ao meu lado; a quem tento envolver todo num abraço gigante; a quem beijo a testa e cheiro o cabelo; e a quem dou palmadinhas no rabo, pensando que ali ainda vou encontrar o barulho das fraldas.