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O Perigoso Mundo do Zapping

Preparo-me a rigor: pijama, pantufas, manta a tapar tudo desde os pés até às axilas, gato sobre os joelhos, comando da televisão na mão direita. Dou início ao zapping. 
Passo depressa pelas telenovelas dos primeiros canais, corro através da Casa dos Segredos de olhos e ouvidos fechados para não ficar contaminada pelas Legionelas que por ali pairam e estaciono num canal de notícias pensando-me a salvo. Quando ainda estou a arrumar o veículo, sou bombardeada por jactos de escárnio e devassa Socrática e fujo para o canal seguinte. Aqui, sou brutalmente atropelada por tanques de análise futebolística. Volto a fugir a sete pés e caio que nem uma patinha num canal até ao presente desconhecido. No canto superior esquerdo posso ler Sic Caras. Por ser estranho, demoro-me uns minutos a observar o espécime. Quatro seres alinham-se em poltronas que formam uma meia-lua. Oiço-os comentar o que outros seres, que vão aparecendo em fotografias, trazem vestido. Assustada, interrogo-me como pode haver quem goste de fazer aquilo. E quem goste de ver e ouvir aquilo. Como ninguém me responde, nem eu própria consigo arranjar uma resposta que me satisfaça, fico ali entre a indignação e o terror. Reparo que um dos joelhos por debaixo do gato começa a tremer. Ele incomoda-se e muda de posição. Sinto os nervos a pulsarem-me nas têmporas, a respiração aproxima-se do arfar, os batimentos cardíacos aceleram, toda eu estou agora em alerta. Procuro desesperadamente um local seguro onde ninguém, daquela gente, me encontre. Debaixo da mesa? Da manta? Do gato? 
Volto atrás no zapping. O polegar aumenta a velocidade a cada canal que se vai. Encontro um onde só há gente de facas nas mãos, comida, tachos e uns gajos que falam aos saltinhos. Peço refúgio aos gajos dos saltinhos. 

Pouso o comando, deslizo no sofá até ficar com o gato ao colo e adormeço na paz das maioneses e dos ovos estrelados. 
Ámen!

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