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Um Livro Onde Morar

Ando numa ânsia de ler. Talvez porque também ando numa ânsia de escrever. 
Tento escrever uma história que trabalha em mim há tempos. Por isso, leio livros. Leio vários livros em simultâneo, mas não me entra nenhum ou eu não entro em nenhum.
Fico à porta a olhar para dentro. Saio e volto a tentar entrar e saio de novo. Não quero, mas acabo sempre por sair. E ficar à porta a espreitar.
Procuro desesperadamente um onde morar uns tempos. Desejo um que me leve longe, que me engula. Mas a fresta que se abre a cada palavra lida é mínima e não caibo. Ponho o corpo de lado, enfio a mão, o braço, o ombro, mas o peito já não passa e fica à porta. Deixo o peito cá fora e leio só com as mãos e os braços. E o livro passa a ser assimilado a conta-gotas quando o queria sorver de um trago. Queria pegar-lhe e não o largar mais até terminar. Mas pouso-o e descanso-o, e descanso-me. 
Queria entrar nas personagens e pertencer-lhes. Elas fariam de mim o que quisessem, levar-me-iam para as suas histórias e eu integraria a trama, moraria dentro dela, assim como ela passaria a morar em mim. Mas os livros não me têm convidado a ficar. Abrem uma fresta mínima, deixam-me espreitar e dizem "volte mais tarde!". 
Em negação de mais uma tentativa frustrada, baixo a cabeça, retiro os braços e as mãos de fresta, viro as costas e vou-me embora. 

Raramente, volto.

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A sesta

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