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Mudanças

No carro, a caminho do treino de basquetebol:
- Então, J., ainda fazes aqueles exercícios que fazias com as palavras? 
- Não, mãe!
- Então porquê?
- Agora, já tenho mais em que pensar.
- Ah, ok! Mas achas que ainda consegues?
- Não sei. Pergunta lá!
- Completamente.
- Eh, essa é muito grande! Tens que começar por uma mais pequena!
- Corda.
Alguns segundos depois.
- Adroc!
- Ehhhh! Tanto tempo!
- Pois, mãe, já não estou treinado. Dantes, estava sempre a fazer esses exercícios. Agora já não faço. Pergunta outra!
- Coca-Cola.
Um bocadinho mais rápido do que a anterior.
- Acoc-Aloc!
- Eh eh eh! Que giro! Vamos passar a chamar Acoc-Aloc à Coca-Cola. É muito mais giro!
- Sim, vamos. "Vamos beber uma Acoc-Aloc?" Ah ah ah! "Oh não, eu não bebo Coca-Cola que faz mal, eu bebo Acoc-Aloc que é muito melhor!" 
- Ah ah ah! 
Breve silêncio e pergunto:
- Mas conta-me lá, já não tens tempo para fazer estes exercícios com as palavras porque andas a pensar em quê?
- Na verdade, quase não tenho tempo para pensar em nada... Mas, quando tenho tempo, penso que vou mudar o mundo.
- Hum, mudar o mundo? Uma coisinha bem simples. E como estás a pensar mudá-lo?
- Ainda não sei muito bem, mas primeiro vou ser uma estrela de basquete para poder dizer as coisas que estão mal e as pessoas ouvirem-me. Assim, quando me entrevistarem, eu aproveito para mandar umas "bocas".
- Mas para mudares o mundo tens que fazer mais do que mandar umas "bocas".
- Sim, eu sei, mas ainda tenho que pensar melhor nisso.
- Ah, ok! 

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Vá lá, digam qualquer coisinha...
...por mais tramada que seja...

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
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