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Cratiníssimas Desculpas

Aqui há uns dias, excelso Cratiníssimo PEDIU DESCULPAS "aos professores, aos pais, ao país" pela borrada que fez na colocação dos primeiros nas escolas.
Quando ouvi as palavras do senhor ministro pensei "porra, finalmente, aprovo uma acção deste gajo!" e senti-me contente comigo mesma por ainda ter a abertura de espírito suficiente para vislumbrar algo de bom naquilo que até ao momento só me tinha apresentado cocós. Senti-me bem comigo e com ele. Afinal, aquilo não eram só cocós, havia uma ínfima dose de humanidade e humildade no meio de tanta trampa.
Hoje, oiço declarações do mesmo e de outros sobre o assunto e reparo que as declarações dos outros estão repletas de insinuações irónicas ao facto do Cratiníssimo ter pedido desculpas. E tudo me passa a parecer descabido, desajustado, uma farsa. Se em todo o mandato do homem houve alguma coisa que o mesmo fez de digno foi este pedido de desculpas. Pegar nele para o atacar é como pegar numa flor para fazer estrume. Tudo o resto é legítimo de ataque. Tudo menos este pedido de desculpas. Mas os seus digníssimos opositores pegaram na única flor que brotou na estrumeira para fertilizar areais de cactos. Conseguiram aumentar o fedor que deixou de vir de um só lado. 
E ficou tudo empestado!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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