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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2014

Fado

Há pessoas que adoram queixar-se. A falta de uma doençazinha, de algo que não se afigure perfeito, de qualquer coisa que não esteja bem, é motivo de pânico. Ficar sem razão de queixa, motivo de lamuria ou pormenores a melhorar não querem nem imaginar.  Assim, são capazes de disfarçar os erros perante as autoridades competentes para os corrigir só para preservar o trunfo da imperfeição. Denunciar o que está mal? Apenas de forma informal, porque se formal ainda pode haver quem apague o fado por que chorar. E isso é que não.

Voltar Ao Teatro e...

...querer ficar por lá!

Foi assim no sábado passado... Eu e o pai do J. voltámos ao nosso querido Teatro da Comuna.  Se há teatro que amamos é este. Desde a simpatia contagiante do rapaz que vende os bilhetes até às peças de elevada qualidade, passando por todo o ambiente que se vive por ali enquanto se aguarda o início da peça, amamos tudo.
E eu gosto tanto de teatro que ir lá e calhar-me uma peça ligeirinha é uma decepção. Preciso de teatro um pouco como de uma terapêutica que tem de ser consumida com regularidade ou começo a ansiá-la muito. Ou a ressacá-la, como preferirem. Considero uma boa peça, aquela que me coloca questões, que me chocalha as ideias e faz pensar. Gosto de ir para casa com ela na cabeça e discuti-la com o pai do J.  Teatro light não me serve. Coisinhas só para entreter, que não me excitem o cérebro? Não, obrigada! Mais facilmente vejo um filme da treta sem me chatear muito do que uma peça de teatro da mesma qualidade. Fico mesmo muito chateada quando sinto que …

Hoje, Vi o Meu Avô

Hoje, vi o meu avô nos olhos de um senhor sentado num banco de jardim. 
Olhava para dentro como o meu avô tanto olhou até que se perdeu por lá. Dobrava a perna, o senhor, numa ginástica que chamava os músculos adormecidos à vida. Ordens do cérebro que já não lhes chegam. Cabeça que ordena a corpo que não cumpre. 
Hoje, vi o meu avô nos olhos de um senhor sentado num banco de jardim.
Como o vejo por aí, de vez em quando. Como o vejo em flores e gatos. E em sonhos. Encontro-o em sonhos como gostava de o encontrar no banco de jardim.  Hoje, nos olhos do senhor. E na perna. 
Hoje, na ausência do olhar e na saudade imensa.

What Is Beauty?

Onde Foi Que Me Perdi?

Passar pela casa onde vivi, percorrer caminhos antes feitos a cavalo, procurar o meu cão desaparecido há mais de dez anos e tentar perceber onde foi que me perdi. Algures por aqueles campos verdes, por entre caminhos de terra, estradas e vinhas perdi um pouco de mim. Tal como sempre que por ali passo procuro o cão desaparecido, também procuro aquela parte do meu fundo que por lá ficou. Talvez entre o cão e a égua já ida estará o eu que tento redescobrir. É com clareza que me vejo a cavalo, é com verdade que sinto o vento na cara, que cheiro a terra e vejo o sol a baixar no monte lá longe. A palha pica-me as pernas, enfiada nas calças e o cheiro a estrume e a ração estão ainda tão presentes aqui.  E no entanto, o que foi feito de mim? Que parte é essa que se foi nos meus bichos e me transformou tão sozinha deles, e de mim? 
Quem me dera saber onde foi que me perdi.



Mudanças

No carro, a caminho do treino de basquetebol: - Então, J., ainda fazes aqueles exercícios que fazias com as palavras?  - Não, mãe! - Então porquê? - Agora, já tenho mais em que pensar. - Ah, ok! Mas achas que ainda consegues? - Não sei. Pergunta lá! - Completamente. - Eh, essa é muito grande! Tens que começar por uma mais pequena! - Corda. Alguns segundos depois. - Adroc! - Ehhhh! Tanto tempo! - Pois, mãe, já não estou treinado. Dantes, estava sempre a fazer esses exercícios. Agora já não faço. Pergunta outra! - Coca-Cola. Um bocadinho mais rápido do que a anterior. - Acoc-Aloc! - Eh eh eh! Que giro! Vamos passar a chamar Acoc-Aloc à Coca-Cola. É muito mais giro! - Sim, vamos. "Vamos beber uma Acoc-Aloc?" Ah ah ah! "Oh não, eu não bebo Coca-Cola que faz mal, eu bebo Acoc-Aloc que é muito melhor!"  - Ah ah ah!  Breve silêncio e pergunto: - Mas conta-me lá, já não tens tempo para fazer estes exercícios com as palavras porque andas a pensar em quê? - Na verdade, quas…

Mão Desajeitada Para Pentear Cabelos

Olha em frente e sorri. Com os dedos juntos em forma de espátula afasta-me o cabelo dos olhos para me beijar a face. O gesto e a mão desajeitada de quem nunca precisou separar os dedos para pentear grandes cabelos enternecem-me. Fico derretida neste movimento só dele que ninguém nunca conseguirá reproduzir. Gesto que só existe naquela mãozinha pequena e desajeitada para pentear cabelos.  A madeixa volta a descair-me para os olhos. E ele insiste. E recebo festas extra que me aninham na mão do meu filho. Enrosco-me na mão e o meu peito enrosca-o a ele cá dentro. E ele beija-me a face. Um beijinho pequenino diz-me em silêncio "gosto de ti, mãe". E o meu coração liquefeito pelo amor não consegue evitar pingar-lhe melodias de embalar.

Cratiníssimas Desculpas

Aqui há uns dias, excelso Cratiníssimo PEDIU DESCULPAS "aos professores, aos pais, ao país" pela borrada que fez na colocação dos primeiros nas escolas. Quando ouvi as palavras do senhor ministro pensei "porra, finalmente, aprovo uma acção deste gajo!" e senti-me contente comigo mesma por ainda ter a abertura de espírito suficiente para vislumbrar algo de bom naquilo que até ao momento só me tinha apresentado cocós. Senti-me bem comigo e com ele. Afinal, aquilo não eram só cocós, havia uma ínfima dose de humanidade e humildade no meio de tanta trampa. Hoje, oiço declarações do mesmo e de outros sobre o assunto e reparo que as declarações dos outros estão repletas de insinuações irónicas ao facto do Cratiníssimo ter pedido desculpas. E tudo me passa a parecer descabido, desajustado, uma farsa. Se em todo o mandato do homem houve alguma coisa que o mesmo fez de digno foi este pedido de desculpas. Pegar nele para o atacar é como pegar numa flor para fazer estrume. Tu…

Um Livro Onde Morar

Ando numa ânsia de ler. Talvez porque também ando numa ânsia de escrever.  Tento escrever uma história que trabalha em mim há tempos. Por isso, leio livros. Leio vários livros em simultâneo, mas não me entra nenhum ou eu não entro em nenhum. Fico à porta a olhar para dentro. Saio e volto a tentar entrar e saio de novo. Não quero, mas acabo sempre por sair. E ficar à porta a espreitar. Procuro desesperadamente um onde morar uns tempos. Desejo um que me leve longe, que me engula. Mas a fresta que se abre a cada palavra lida é mínima e não caibo. Ponho o corpo de lado, enfio a mão, o braço, o ombro, mas o peito já não passa e fica à porta. Deixo o peito cá fora e leio só com as mãos e os braços. E o livro passa a ser assimilado a conta-gotas quando o queria sorver de um trago. Queria pegar-lhe e não o largar mais até terminar. Mas pouso-o e descanso-o, e descanso-me.  Queria entrar nas personagens e pertencer-lhes. Elas fariam de mim o que quisessem, levar-me-iam para as suas histórias …

O Meu Tom é Outro. Ou Talvez Esteja Desafinado....

Bem, já que toda a gente por esta blogosfera fora falou deste filme, e que o amou e blábláblá, também vou falar dele, ok?
Fui vê-lo porque como não tinha a quem deixar o J. para ir ver o "Em Parte Incerta" com o pai dele, tivemos que escolher um filme que o pequeno também pudesse ver e como só tinha referências positivas deste filme, deixadas aqui, neste mundo virtual, lá me deixei convencer.
Na verdade, estava à espera de melhor. Não achei nada as maravilhas que disseram dele, mas nem todos achamos o mesmo, não é? 
A rapariga canta bem, os actores portam-se bem, mas não tem nada de mais.  Enfim, é um filmeco para entreter com uma musiquinha agradável. Apetecia-me uma coisa com mais "substância".  Talvez para a próxima consiga acertar o tom...

Porque Ontem Foi Dia do Animal

Só o último ainda cá está. Falta um que também já desapareceu. Saudades vossas!

Post Esquizofrénico

Constante procura de serenidade. Dúvidas no ar e em volta. Rodear a perturbação de não haver resposta. E perguntar de novo. 
Paira o silêncio da incerteza. Zumbem interrogações. Surge a linha infinita da hipótese. 
Pluf! Rebenta a bolha!

Guerras Maritais Pré-Sono

A propósito de uma crise generalizada de diarreia que invadiu esta casa...
Eu - Ó pá, estás a habituar-te a ficar doente! Tu és o gajo da saúde aqui de casa, não podes ficar doente! Primeiro foi o dedinho partido, agora é a diarreia...
Pai do J. - Então?! Estou a gostar de estar em casa, o que é que queres?
Eu - Mas não podes! Se tu deixas de ter saúde, está tudo estragado! Deixa lá as doenças para mim que essa é a minha função.
Pai do J. - Tu até és uma pessoa saudável... Eu sempre tive mais doenças do que tu!
Eu - Ah, mas eu não tenho doencinhas... Quando é para ficar doente é mesmo a sério, tenho logo doenças que matam e que requerem tratamentos altamente corrosivos... Não ando aqui a brincar como tu que só arranjas coisinhas para entreter o corpinho como alergias e essas brincadeiras para sistema imunitário ver!

Inversões

Diz que a idade traz maturidade. Diz que ensina o respeito pelo outro, a tolerância, a serenidade do saber. Diz que há algo que cresce por dentro, que se acumula sabedoria e se aprimora o ser.
Diz que sim, que é tudo isso, mas em grupo inverte-se a teoria e volta-se ao berço. 

Do Mérito, da Honra e do Orgulho Que Tolda a Visão

Eu não queria escrever este post, mas, desculpem lá, vai ter que ser!
Por estes dias entregaram-se os diplomas aos alunos que ficaram no Quadro de Mérito, Honra ou Sei-Lá-O-Quê. Deste modo, o Facebook tem sido inundado por litros de baba de mamãs e papás orgulhosos que a destilam por tudo o que é lado.  Até aqui, nada de novo ou de especial! Também eu, mãe de criança recorrentemente diplomada, já desabafei no Facebocas o orgulho que tenho na cria.
A diferença entre a minha baba desabafada e a vertida por estes pais, e o motivo deste post que-não-queria-sair-mas-saiu, está na fotografiazinha que ilustra o momento.  O orgulho destes pais entornou-lhes baba sobre os olhos e a visão toldou-se-lhes!  Não é que os ditos escarrapacharam fotografias dos diplomados rebentos com o diploma na mão onde se lê na perfeição o nome todo dos rebentos e a escola que frequentam? Será que não se apercebem que estão a dar ao mundo, de bandeja, informações preciosas sobre os filhos? 
Ou sou eu que sou tod…