Avançar para o conteúdo principal

(Des)parametrizar

Vivemos parametrizados, cercados por regras e padrões que nos prendem, que nos amarram, a convenções que, por vezes, nada têm a ver com as nossas. Vivemos presos a um cabelo assim, a um corpo assado, a padrões de pensamentos, de comportamentos, de opiniões, de bens materiais, de coisas e mais coisas. Vivemos sepultados numa imagem que não nos reflecte. E podemos viver assim anos, décadas. Podemos viver assim eternamente.

Ou podemos, um dia, abrir os olhos e enxergarmo-nos. Olharmos para dentro e vermos aquilo que somos. Sentirmo-nos bem num corpo menos estereotipado, gostarmos daquela cicatriz, afeiçoarmo-nos àquele dentinho torto, àquela assimetria do rosto. Sentirmo-nos bem num penteado que não está na moda, numa roupa que não se usa, gostarmos de comida picante, detestarmos gin, preferirmos andar descalços, adorarmos rebolar na areia, passarmos a olhar o infinito em vez do ecrã de um computador e libertarmo-nos de padrões que não nos dizem nada. Libertarmo-nos daquilo que não nos serve, libertarmo-nos daquilo que nunca nos serviu, porque é fútil, porque é oco, porque não cabe em nós.
E assim, leves e soltos, abandonarmos de vez a ideia da perfeição. E desabrocharmos num amor-próprio livre que nos permitirá encontrar prazer nos defeitos, especialmente nos defeitos, nos nossos defeitos, que se transformarão em, apenas, mais uma parte de nós, sem o peso do "errado" e do "imperfeito". Sem peso nenhum.
E assim, sem as coisas vãs que não nos enchem e só nos esvaziam, encontrarmos mais um pouco desse "eu", cuja procura justifica toda esta travessia.

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…