Avançar para o conteúdo principal

A Rita e a Lina

Há pais viciados na Rita e na Lina. Há pais que não conseguem olhar para os filhos sem que estes estejam drogados. É completamente incomportável para estes pais que os filhos não queiram fazer os trabalhos de casa; que se distraiam com a mosquinha que lhes viaja pelo quarto enquanto estão sentados na secretária a olhar para os cadernos da escola que gostariam de queimar; que tenham uma letra feia; que prefiram andar aos saltos a estar concentrados em merdas que não lhes dizem absolutamente nada, porque a vida é feita de vídeo-jogos e televisão e tudo o resto não interessa nem ao menino Jesus, nem vale metade da atenção que despendem com coisas importantes como os jogos em que podem passar de nível.

"Estão doentes, de certeza" pensam os pais. E levam-nos ao pediatra que os encaminha para um psicólogo, que não os deixa sair sem um diagnóstico e uma receitazinha da Rita mais a Lina, uma anfetamina prima da cocaína, que os deixa sossegadinhos, direitinhos, atentos, obedientes e cheios de vontade de fazer os TPC. Os pais saem maravilhados do consultório sem se aperceberem que no momento que enfiarem aquela porcaria goela abaixo dos filhos perdem-nos para uma família de químicos que, além de os levarem para longe, os despersonaliza para sempre.

Alguém, na sua perfeita saúde mental, acredita que há crianças com vontade de fazer TPC? 
Alguém acredita que há um real interesse das crianças pela escola, nos moldes em que ela se lhes apresenta hoje em dia? 

Não me lixem!

(Sim, tive reunião de encarregados de educação e vim de lá lixada com F grande!)


Mensagens populares deste blogue

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…