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Pessoal do Estrume

Sei que me olham com algum respeito e interesse enquanto não sabem quais as minhas habilitações académicas. Provavelmente, pensam que tenho algum curseco superior. Talvez por não ser uma completa ignorante ou até por saber ler. Vá-se lá saber!
Sinto que só lhes interesso até de me perguntarem "qual é o teu curso?", "o que é que fazes?" ou "o que é que fazias?".
Quando lhes digo que não tenho nem licenciatura nem mestrado e que por acaso até frequentei o ensino superior, mas nunca o acabei e remato a conversa a dizer que fui tratadora de cavalos ou assistente administrativa, já não lhes interesso. 
De repente, todo o interesse que tinham demonstrado pela minha pela pessoa, esfuma-se no ar.
Noto isto, mas não deixo de lhes dizer o que fiz na vida, já que lhes interessa tanto. Muitas vezes até faço questão de acrescentar que carreguei fardos de palha, sacas de ração e limpei estrume. 
Se pensar bem, ter sido administrativa foi das merdas mais leves que fiz, mas não a de que mais me orgulho. No fundo, no fundo, orgulho-me mais de ter carregado o estrume dos cavalos do que o de executivos. É mais limpinho, biológico e saudável. Porém, este não é tão bem aceite pelos ex-interessados em mim, que deixam automaticamente de me perguntar seja o que for.
Para ser sincera, não me sinto nada diminuída perante os mestres ou licenciados que este tipo de interessados/desinteressados em mim respeitam. Sei que todo o estrume que carreguei nesta vida me deu um arcaboiço que eles nunca terão nem compreenderão. Tal como eu não terei a "experiência" de vida que lhes deu as brincadeiras das praxes durante os anos em que frequentaram as universidades. (Esta foi mazinha, eu sei!) Mas também não trocava. 
(Eh pá, pronto, gosto do estrume, o que é que querem?)

Mas, apesar de não ser rapariga de muito estudo, gosto de olhar para estes comportamentos humanos de uma forma analítica e tentar perceber o que move esta gente a agir desta forma. [Desculpem lá, mas deve ser o contacto com o estrume que faz estes efeitos no cérebro das pessoas como eu, que não estudaram muito. Põe-nas a pensar, assim, um bocado. Ou então é a falta das praxes! 
(Ai que eu sou tão má! A culpa é do estrume, hã!) ]

Olho para estas pessoas ex-interessadas noutras e parece-me que o excesso de informação que as cerca (e a nós, pessoal do estrume, também), as obriga a fazer uma selecção dos outros com que se poderão querer relacionar de uma forma muito mais rápida, porque como todo o tipo de gente e informação lhes aparece quase à velocidade do som, elas não têm tempo de aprofundar o conhecimento, tanto das pessoas como do saber em geral. E aí seleccionam-nas baseadas em critérios completamente superficiais, como as habilitações por exemplo. 
Penso que, primeiro, poderá por ser já uma questão cultural avaliar os outros pelas habilitações académicas. Segundo porque, como já há tantos licenciados e mestrados completamente ignorantes, parte-se do princípio que os não são nem uma coisa nem outra só podem ser perfeitos asnos. 

Lamento, mas vou ter que os desiludir e tornar este processo de selecção de pessoas um pouco mais difícil ao dar-lhes esta pequena informação de borla:

NEM TODOS SÃO PERFEITOS ASNOS. HÁ TAMBÉM OS QUE LHES LIMPAM O ESTRUME! 
OK?

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