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Histórias Guardadas

O peso dos ombros inclina-a um pouco para a frente. Sentada na cadeira de napa azul-esverdeada encostada à parede da sala de convívio, junta as mãos no regaço. Os dedos entrelaçados como que a fechar o abraço à volta do próprio corpo cerram em si histórias mil. Oitenta e sete anos de agitadas aventuras dentro daquela vida, agora, estagnada. 

Quem diria que um dia enclausurada entre os momentos em que se lembra, e os que esquece, que naquela sala de convívio não se convive?

Se o olhar se levanta das mãos que guardam todos os anos, vê velhos em estado meio demente, entregues à falta de tempo dos familiares e à distância protectora dos profissionais, que aguardam a morte no vazio do agora.
Ela bem conhece o passado cheio que, também eles, trazem e ninguém vê. Bem sente o peso das lutas e conquistas que lhes preenche os corpos inúteis à vontade de fugir.
Tal como eles, acaba por calar a revolta no entorpecimento dos medicamentos e na resignação da vida que ficou no que foi e já não é. Mas o segredo que guarda em si não está nos males que o corpo insiste em suportar, mas no peso das histórias que viveu, que a inclina um pouco para a frente, quando está sentada na cadeira de napa azul-esverdeada, e que faz questão de carregar para todo o lado, imponentemente, sobre os ombros.

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Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
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