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Do Jornalismo

Tenho reparado que o acidente/atentado do avião da Malaysia Airlines motivou uma onda de consternação e revolta quanto à exploração das imagens da tragédia pela comunicação social. O jornal mais atacado pelas vozes indignadas foi o Correio da Manhã pela capa de hoje. 
Detesto o Correio da Manhã. Acho que é do piorzinho jornalismo que se faz em Portugal (reparem que estou a ser uma querida por ainda chamar àquilo "jornalismo"), mas neste caso venho aqui para o, mais ou menos, defender. 
Na verdade, não me espantam nada estas capas de jornais, em que se explora a imagem da desgraça para se vender notícias. Não concordo, não gosto, desprezo, mas não me espantam. O que me espanta é as pessoas indignarem-se todas quando se trata de mortos e esquartejados, mas adorarem, e até incentivarem, quando se trata da devassa da vida de gente de corpo inteiro e vivinho da silva.
Mas adiante.
Por outro lado, não posso deixar de chamar a atenção para o caso da imagem abaixo, que foi divulgada por todo mundo aquando do desabamento de uma fábrica no Bangladeche, e sobre a qual não li nem ouvi ninguém mostrar tamanha indignação. Até, antes pelo contrário, foi encarada como uma ode ao amor. Também aqui aparecem corpos mortos que se exploraram por estas Internet, capas de jornais e telejornais fora. Mas aqui a componente romântica abafou as vozes que se tentaram elevar em defesa da privacidade destas duas pessoas e seus familiares.

DAQUI

Por ainda outro lado, e talvez o lado mais relevante, o objectivo da comunicação social é vender jornais e notícias, ao mesmo tempo que constituiu uma via para divulgar pelo mundo o que se vai passando neste mesmo mundo. Precisamente por esta ordem: vender notícias e só depois informar. Não ao contrário, como seria desejável. E aí reside o problema, na vertente comercial da informação, que tem, ao longo dos anos, impedido que esta se mantivesse isenta e desinteressada (se é que alguma vez o foi e não passou apenas de uma pretensão lírica).
A partir do momento em que o jornalismo em particular e a comunicação social em geral, se tornam convertíveis em dinheiro, em muito dinheiro, o principal interesse é vender e só se vende aquilo que as pessoas querem comprar.

E finalmente, cheguei onde queria, ao que as pessoas querem comprar. Este sim, é o cerne desta questão. Infelizmente e com muita pena minha, não posso culpar o Correio da Manhã pelo mau jornalismo que fabrica e comercializa, tenho mesmo que, contra vontade, apontar o dedo a quem o compra, porque é este "quem" que o torna assim tão medíocre.
E aqui venham daí as pedras, porque o que vou dizer a seguir não vai agradar à maior parte das pessoas!
As pessoas, leia-se "a maioria", gostam do horrendo, da tragédia, da intriga, da devassa alheia e da perversão. Gostam sim. (O sucesso dos reality shows corrobora bem esta minha afirmação no que concerne à intriga e à devassa e o sucesso que terá o livro da mãe do Ronaldo no que diz respeito à tragédia e... à devassa alheia outra vez). Por vezes, até deliram com isso, mas têm vergonha de o admitir e encobrem esse fascínio sob uma capa de consternação. É esta capa (não a dos jornais) que me enoja, porque esconde os verdadeiros podres desta sociedade e a torna tão hipócrita quanto desprezível.
(Ok, já me estou a desviar das pedras, mas agarrem mais umas quantas que isto ainda não acabou!)
E uma vez mais, não vou poder atacar o Correio da Manhã (oh!) e dizer que não tem o mínimo de sensibilidade para com a dor dos familiares das vítimas do acidente/atentado ou respeito pelas próprias vítimas, quando explora a sua privacidade ao expor, numa fotografia enorme na capa do jornal, os seus corpos despidos e em pedaços...
Vou ter mesmo que dizer que a culpa é nossa, sociedade de merda, que consumimos toneladas de lixo encapotado nas mais variadas formas de dissimulação de dejectos, entre elas está o jornalismo claro, mas também estão muitas outras coisas de que não vou falar aqui. Hoje.



E pronto, acabei de perder os poucos seguidores que restavam a este blogue...

Alguém pode, por favor, tirar estas pedras de cima de mim? Hu hu, está aí alguém? 

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