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Às Vezes, Gostava de Ser Pequenina Outra Vez...

Às vezes, gostava de ser pequenina outra vez... 
Passar as tardes em casa da minha bisavó a fazer roupinhas para as bonecas. Acordar com o cheio do café da cafeteira da minha tia-avó e almoçar sopa de legumes e carne assada com puré. 

Às vezes, apetecia-me ouvir a voz da minha bisavó outra vez, sentir o cheiro a sabonete das mãos do meu avô e ouvi-lo comer sopa e beber vinho tinto. Queria dar voltas de bicicleta à casa da minha avó até ela gritar para eu parar de marcar o chão do terraço com os pneus da bicicleta. Queria subir às árvores e ver gatinhos nascer. 

Às vezes, queria sentar-me ao colo do meu pai a ver televisão, jogar crapô com a minha avó, comer pão com manteiga e Ovomaltine e fingir que ando a cavalo no corrimão do varandim. Queria andar de patins como se fosse uma patinadora que ganha todas as provas e cantar como uma cantora da Eurovisão.

Às vezes, queria ser uma índia e navegar de canoa debaixo da mesa da sala. Queria fazer suflé de peixe com a minha mãe e chamar-lhe brincada, brincar aos polícias e ladrões e ser os polícias, os ladrões e todas as outras personagens da história. 

Às vezes, gostava de pedir desejos que eu só poderia formular quando me caíssem pestanas, que eu apanharia e apertaria entre o indicador e o polegar e teria de adivinhar se estariam coladas ao dedo de cima ou ao de baixo. Os meus desejos ainda seriam pintar-me como a minha mãe, ir à terra dos índios e atravessar a estrada sozinha.

Às vezes, queria ser pequenina outra vez e achar que ainda me falta muito tempo para ser grande.

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