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Eternizar a Infância

Nós, pais, sentimos os nossos filhos sempre bebés. Olhamos para eles e vemos o bebé a dormir, as primeiras palavras, os beijinhos cheios de baba, os choros, os primeiros passos... Por maiores que os nossos filhos sejam, serão sempre os nossos pequeninos.
Mas daí a não os deixarmos crescer, vai uma grande distância. Ou devia ir...

Crianças de cinco anos que não comem sozinhas, alguma coisa está mal. Miúdos de sete anos que não limpam o rabo sem ajuda, algo está errado. Se aos dez anos não tomam banho e não se vestem sozinhos, o problema é grave. 
O problema grave está nas crianças e nos pais. E o problema é especialmente grave quando vem dos pais. 

Perpetuar a infância porque se perpetua a dependência dos filhos em relação aos pais, é proibi-los de crescer, é atar-lhes as mãos e os pés e dizer-lhes "tu, sem mim, não és nada!". E isso é horrível! É tão horrível que ouvimos pais, especialmente mães, dizer que "ele não come se não for eu a dar-lhe!", "sem mim, a minha filha não adormece. Não dá para a deixar em casa de ninguém.". Dizem isto cheias de orgulho. Do mesmo modo que dizem dos maridos "tenho que ser eu a escolher a roupa senão ele vai todo mal vestido para o trabalho!". E os maridos também se orgulham da sua incapacidade de se vestirem sozinhos "se não fosse a minha Maria, eu vestia umas calças aos quadrados com uma camisa às riscas. Ainda bem que tenho uma mulher tão prendada. Não tenho jeito nenhum para essas coisas!". 

Quando oiço coisas destas, fico a pensar por que raio de carga de água as pessoas se orgulham de ser incapazes e porque valorizam tanto a dependência umas das outras. Depois penso mais um pouco e interrogo-me se não será pelo medo de perder o outro que se o prende a imbecilidades, como a escolha da indumentário ou do cardápio. Se não será o medo de perder o outro que se o torna dependente nas pequenas coisas, porque nas grandes eles nunca o serão?
Tal como se faz com os maridos, faz-se com os filhos. Não se os ensina a cozinhar, a lavar a própria roupa, a passar a ferro, para que não saiam de casa cedo. Precisam das mães em adultos para lhes cuidarem da casa e lavarem as cuecas. 

Isto é triste, porque se confunde amor com serventia e com dependência.
Maridos e filhos não precisam de mulheres e mães para sejam suas empregadas, precisam de pessoas que os amem. E amar não é escolher a roupa ou lavar as cuecas, amar é dar noções de estética (quando estas não existem mesmo) para que se vistam sozinhos e ensinar os programas da máquina da roupa para que lavem as cuecas sem ajuda. 

Amar é tornar o outro independente de nós e mesmo assim ele querer-nos por perto. Amar é voar ao lado, não é partir as asas para que tenham que nos pedir boleia.

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