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A Indignação das Coisas Absurdas

O meu filho anda com a mania que já não quer ver desenhos animados. "Agora, quero ver filmes com legendas!" diz. Ir com ele ao cinema torna-se mais difícil. Ainda não tem idade, nem maturidade, para ver certos filmes e os que geralmente não impressionam nem são demasiado complexos são parvos.
No sábado, queríamos ir ao cinema, mas a escolha do filme tornou-se tão difícil que acabámos por não ir. Ficámos em casa, fomos buscar o saco de pipocas e vimos As Serviçais.


O J. sempre foi educado a não discriminar ninguém. Pretos, brancos, amarelos e às riscas são tratados da mesma forma. A cor, a orientação sexual, a condição socio-económica, as ideologias religiosas e/ou políticas são coisas de que não tomamos nota. Vá lá, das ideologias políticas tomamos. Até porque elas, às vezes, dizem-nos se estamos ou não a lidar com gente preconceituosa e discriminadora. Sim, as ideologias políticas podem dizer-nos isso. E as religiosas, às vezes, também. Mas... adiante!

Por aqui, ninguém é racista. Temos amigos negros, o J. é fã de basquetebol, onde os melhores jogadores, e seus ídolos, são negros, tem um treinador negro, desde o infantário que tem colegas negros. Ser negro, para o J., não é nada de estranho, antes pelo contrário, ser negro é quase uma condição para jogar bem basquetebol.

Durante o filme As Serviçais, a discriminação pela cor foi indignando o J. Perguntava se era mesmo assim, porque é que as pessoas julgavam e tratavam mal os outros só por serem de outra cor, porque havia transportes públicos e casas-de-banho separados para brancos e pretos e porque não tinham os mesmos direitos na sociedade. O meu filho deixou que a indignação das coisas absurdas o revoltasse. E foi dando sinais de que a injustiça vai ser coisa que não vai tolerar. E eu fui sentido algum orgulho. Apesar da desilusão com a raça humana que o fui vendo sentir, fiquei contente por a única intolerância que o assola ser para com a injustiça e a estupidez humanas.

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