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Abraço Vermelho e Azul

Chegou da escola com o pai. Mal entrou em casa, foi a correr para o quarto. Atirou a mochila para o chão, abeirou-se da janela e agarrou nos bonequinhos da Playmobil, com a pressa de quem tem oito anos e uma ânsia imensa de viver.
Alinhou-os, formando duas colunas: uma de guardas romanos e outra de guardas egípcios. Iniciou a batalha. De vez em quando, soltava uns “ya!”, “ai!”, “toma, toma!”, “catrapum!”. Imaginava que eram guardas de carne e osso e que se magoavam a sério, sempre que levavam uma traulitada na cabeça. Quando isso acontecia, lá vinham os enfermeiros improvisados, que não eram mais do que uns bonequinhos de outra colecção da Playmobil, a dos treinadores de cães. Sabia perfeitamente que no tempo dos romanos e dos egípcios não havia enfermeiros como os de hoje, mas não se importava, pois queria era brincar e queria enfermeiros na história dele. E uns treinadores de cães armados em enfermeiros serviam muito bem esse propósito.
Saltavam bonecos pelo ar, iam de encontro às paredes e, por fim, acabavam por se estatelarem no chão. Era esta algazarra que o fascinava, eram os saltos, cada vez mais altos, e as cambalhotas acrobáticas que o impediam de parar a brincadeira com os bonecos. Queria que eles se superassem, que, apesar das duras batalhas que travassem, fossem invencíveis.
Era capaz de ficar horas naquilo: a fazer saltar bonecos pelo ar e a socorrê-los cada vez que se magoavam.
Este parecia ser um dia de brincadeira intensa, como tantos outros...
Até que, de repente, parou a brincadeira e fitou o pôr-do-sol, através da janela. “Oh, que lindo pôr-do-sol!”, pensou. Parecia mesmo aquele que viu, naquele dia de inverno, em que foi com os pais à praia...
Ele e o pai jogavam com as raquetes, a mãe lia um livro, deitada na areia. Estava toda vestida, cheia de frio como é costume dela. Lia o livro entre espreitadelas à brincadeira dos dois. Quando via uma boa imagem deles, do sol ou do mar, pegava na máquina e fotografava. A imagem da mãe deitada na areia, atenta a tudo, e a eles, ficou gravada na sua memória como as imagens dele e do pai, do sol e do mar, nas fotografias que ela tirou naquele dia.
O sol ia descendo devagarinho. Ele e o pai já suavam de tanto correrem e saltarem para apanharem a bola e a mãe, enroladinha na toalha, esboçava-lhes um sorriso tremido pelo frio. Que mãe friorenta, aquela!
Entretanto, o sol pousou no mar, iluminando a praia em tons de vermelho, mas ele só reparou nisso, quando a mãe o chamou, apontando para aquele astro gigante no horizonte, “Filho, olha!”. Ele olhou e correu para ela. Saltou-lhe para o colo e, abraçados, viram o sol entrar no mar, ao mesmo tempo que as cores da praia mudavam dos tons de vermelho para os de azul. Aquele abraço da mãe nunca lhe iria sair da pele. Foi um abraço vermelho e azul. Não há muitos abraços vermelhos e azuis e aquele foi dos poucos que sentiu até hoje.
Engraçado, agora que pensa nisso, apercebe-se que é sempre a mãe quem o lembra das coisas maravilhosas que vivem sobre a sua cabeça. É sempre ela que repara no que está para lá do ar. Engraçado...
O sol que teimava em deitar-se, ali mesmo à sua frente, através da janela do quarto, era igualzinho ao outro da praia, que viu ao colo da mãe. Só que este ia deitar-se sobre os montes, lá longe na linha que separa o céu da terra, em vez de no mar.
- Filho! – chamou o pai.
- Sim, pai?!
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar.
- Ok! Mais meia hora e vais fazer os trabalhos de casa, está bem?
- Está bem, pai. Mas depois a mãe tem que ver se estão bem...
- Está bem, está bem! - responde o pai.
- Mãe, vês os meus trabalhos, não vês? -  pergunta ele.
- Claro que sim, filho! – ouve-a dizer.
- Mãe, o que é o jantar?
- São almôndegas com esparguete, como tu gostas!
- Boa! Fazes sempre as minhas comidinhas preferidas, não fazes, mãe? Adoro as tuas almôndegas. As da escola são uma porcaria!
- Eh, filho, não acredito que sejam assim tão más!
- São, juro! São horríveis!
Voltou a olhar para o sol, até desaparecer por completo, até a luz que entrava pelo quarto adentro ficar azul. Como lhe saberia bem um abraço vermelho e azul, naquele momento...
- Mãe!!!! – gritou - Abraça-me! Mãeeeee!!!
- O que é? O que é que se passa? – pergunta-lhe o pai.
- Pai, estou a chamar a mãe, não é a ti! – responde, com lágrimas nos olhos.
O pai entra no quarto, senta-se ao lado dele, envolve-o nos braços com força, limpa-lhe as lágrimas e beija-o no rosto.
- Pai, eu estava a chamar a mãe, não a ti! - diz-lhe, entre soluços e com a voz a sumir-se-lhe por entre as lágrimas.
- Filho, a mãe já não está cá. – murmura o pai, com lágrimas a saltarem-lhe dos olhos.
- Está, pai! Ela fala comigo... Se ela não estivesse aqui, não falava comigo...
- Ela ficou dentro do teu coração e é a voz dele que tu ouves, sempre que pensas na mãe.
- Porque é que ela não está aqui para me abraçar, pai? - perguntou, quando a voz conseguiu passar-lhe para fora da garganta.
- Porque aquela doença malvada a levou. Mas, apesar de ela não estar aqui para te abraçar, ela está, e ficará para sempre, nesse teu coraçãozinho.
- Pai, dás-me um abraço vermelho e azul, dás?

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O meu pai

Lembro-me de, aos 15 anos, ter amigos com pais com idades entre os 50/60 anos. Olhava para eles e pensava "fogo, os pais deles são tão velhos".
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Hoje, faz 62 anos e sou eu que tenho 41. A diferença de idades continua a mesma, mas sinto-me mais próxima dele. Mais próxima em idade e mais próxima fisicamente.

Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Discutimos que nos fartamos, porque adoramos uma boa discussão. Um diz preto e o outro diz branco. Raramente, chegamos ao cinzento, porque somos igualmente casmurros.

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