Avançar para o conteúdo principal

A Importância de Não Ter

Estamos em crise, é verdade. Há imensa gente com falta de imensas coisas. Neste momento, sentimos que é importante que toda a gente tenha acesso a:
- Saúde
- Educação
- Habitação
- Alimentação
- Água
- Luz
- Gás
Incrível, não?
Enfim, O top de vendas deste Natal é o que se vê!

Se nos abstraíssemos de tudo o que tem acontecido neste país nos últimos anos e olhássemos só para esta época festiva, poderíamos concluir que este país está bem e recomenda-se.
Vemos crianças cheias de presentes caros e adultos cheios de novas tecnologias de última geração. Coisa de ricos, claro! As gentes deste país estão "cheias da massa"!

Estão? Ou passaram fome todo ano para, no Natal, se vingarem e comprarem todas as merdas que lhes deu na gana?  
Pois, não sei. E sinceramente, não quero saber. Cada um sabe o que vale a fome que passa. Se para uns vale uma Playstation, para outros pode valer simplesmente evitar passar fome. Cada um tem o direito de decidir quais as prioridades da sua vida. 
Apesar de não concordar que se comam Playstations ou Bimbies, sei que toda a gente pode comer o que quiser. (Eu cá prefiro um bom peixinho com legumes e batatas do que uma merda preta de plástico ou uma panela cheia de nada, mas isto sou eu que sou esquisitinha!)

Mudando de assunto, ou não mudando assim tanto, neste Natal notei que o meu filho, em vez de fazer a lista de presentes do costume, disse que não queria nada. Este "nada" preocupou-me. Veio-me várias vezes à cabeça "mas nada porquê? Estará preocupado com não termos dinheiro para lhe compararmos uma prenda? Sentirá que já tem tudo o que queria e agora não quer nada?" e fiquei a matutar na segunda opção... Fiquei, francamente, mais preocupada se "o nada" fosse causado pela segunda opção do que pela primeira...
Preocupar as crianças com a crise é mau, claro que é, mas elas deixarem de desejar algo especial, parece-me muito pior. Todos os desejos realizados destroem a possibilidade da construção de novos desejos, de novos objectivos. E isso é assustador numa criança de nove anos. Por isso, o alarme "mãezite" suou e resisti à tentação de lhe dar algo caro ou que poderia vir a desejar muito. 
Demos-lhe um livro e vi a desilusão assombrar-lhe o rosto. Livros, é coisa que vai recebendo durante todo o ano, não é nenhuma novidade, nem nada de especial.
Devo confessar que me custou ver aquela cara de desilusão, mas parece-me que ela lhe fará melhor do que antecipar-me a um desejo que poderá vir a sentir. 
Deste Natal até ao aniversário ou até ao próximo Natal, poderá construir novos desejos, poderá aspirar novos presentes, terá tempo para desejar e sonhar com algo especial. 
Não lhe ter dado nada de mais do que lhe vou dando durante o ano, pode ajudá-lo a fazer sobreviver o sonho e as aspirações e a ter consciência do "não ter" que é tão, ou mais, importante do que "o ter".
Espero eu.

Comentários

  1. Compreendo o teu ponto de vista, mas sou um pouco contra quebrar ou destruir essa magia nas crianças, afinal o Natal e uma época magica para elas , aquela altura do ano que podem desejar algo e esperar que encontrem debaixo da árvore no dia de Natal.
    Porém acho importante eles estarem dentro da situação financeira dos pais e serem capazes de adequar o seu desejo as suas capacidades financeiras.
    Sou contra dar presentes e mais presentes, agora poder dar-lhe um que seja do seu agrado...gostava de o poder fazer todos os anos.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. Felizmente, ainda há gente com dinheiro para gastar... e há gente que faz melhor ginástica financeira. ;)

    ResponderEliminar
  3. Pois, Rosinha, o problema do meu filho é mesmo esse, a falta de desejo. O "nada" dele não me parece ter nada a ver com a situação económica do pais, que, por acaso ou sorte ainda nem é assim tão má. Pelo que entendi, o "nada" dele é mesmo não sonhar com nenhum brinquedo em especial para o Natal. Por isso, acho que não lhe ter dado um grande presente, tentando adivinhar o que ele poderia vir a desejar, mas ainda não desejava, pode dar-lhe mais tempo para ele desejar realmente algo. É esse sonho e essa magia do Natal que não quero quebrar, mas fazer renascer.
    Bjs

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Vá lá, digam qualquer coisinha...
...por mais tramada que seja...

Mensagens populares deste blogue

Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
Antes do Verão: Anita corre quilómetros para caber no biquíni
Em férias:  Anita mete o pezinho na areia e o nariz no mar
Em dias de sol: Anita vai à esplanada com as amigas e diverte-se a potes
No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
À hora das refeições:  Anita cozinha um delicioso jantar cheio de super-alimentos e de baixas calorias ou  Anita vai almoçar a um sítio todo fashion, come imenso marisco e bebe sangria de champagne
Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
Sábado à noite:  Anita dança e bebe gin 
Tarde de domingo:  Anita vê um filme com a família ou Anita tem umas flores lindas…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…