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Deito-me Tarde

Deito-me tarde porque a manhã chega demasiado depressa quando durmo. 
Detesto a manhã de amanhã. Detesto os dias, fechada, sem poder sair dali. Detesto estar ali. 
Os meus passos desejam sempre voltar para trás. Desejam tanto...
Estremeço só de pensar que gasto tanto tempo naquilo. Tanto tempo, contrariada. As nove horas não se gastam. São intermináveis. E repetem-se todos os dias. Todos os dias. 
E o fim-de-semana não chega. Quando chega, esfuma-se num sopro. E tenho de voltar.
Doem-me os dias. Doem-me tanto. É como se tentassem esmagar-me o coração... Encolho o peito para o proteger, mas o aperto vem de dentro. E não passa. E estremeço, e suo, e o estômago sobe-me até à boca. 

Deito-me tarde para prolongar as noites. 
Preciso de noites enormes. Aqui. Se durmo, voam. Quero que os dias ali voem, não as noites aqui. Prescindo de ver o sol se for preciso, mas dêem-me mais noites que dias. Os dias sufocam-me e preciso de respirar. Preciso tanto de respirar.

Deito-me tarde e não durmo. Não posso. 
Vivo com horas de sono a menos. E já não penso. Já não consigo pensar como antes. Tenho neurónios a implodir por falta de sono. E tenho restos de vida por viver, fora dali.

Deito-me tarde para atrasar os dias, os dias enormes e monstruosos, que me destoem as noites.
Aqui.


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