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Plantossoas ou Pessolantas

Em conversa pré-sono.

- Mãe, quando vi aquele cordão umbilical na Pais & Filhos, pareceu-me um polvo.
- Oh não, é tipo um saquinho com muitos fios lá dentro que são as veias e que levam os nutrientes ao bebé.
- Através do sangue?
- Sim, é o sangue que leva os nutrientes ao bebé quando está na barriga da mãe. É incrível esta história da vida, não é? Como pessoas dão origem a outras pessoas.
- Sim, é um bocado estranho!
- Pois é. Duas pessoas fazem outra pessoa dentro de uma delas.
- Felizmente, eu nunca vou ter uma pessoa dentro de mim!
- Felizmente??? É bom ter uma pessoa a crescer dentro de nós! Mas vais dar uma sementinha para a pessoa crescer dentro de outra pessoa!
- Sim, pois vou... Mas qualquer dia, isso vai acabar!
- Vai?
- Sim, vão-se criar pessoas através das plantas!
- Das plantas?! Então porquê?
- Porque isto vai tudo mudar! As pessoas vão-se juntar com as plantas e formar outras pessoas!
- Ah ah ah! Plantossoas?
- Sim, ou pessolantas! Ah ah ah!
- As pessolantas verdes e com braços vão trabalhar, mas à hora de almoço saem para a rua e põem o pezinho enfiado na terra para almoçarem, é isso?
- Ah ah ah ah! É! E ao jantar também!
- Sim, vai a família toda. E o pai diz à mãe "olha, rega aí o miúdo que ele anda com pouco apetite! Assim, fica mais bem alimentadinho!".
- Ah ah ah ah! Ó mãe, tu és mesmo maluca! Ah ah ah! E depois... depois o filho quer terra em forma de hambúrguer, ou de batatas, ou de sementes de sésamo...
- Sementes de sésamo?! Mas as pessolantas não podem comer sementes de sésamo, senão estão a ser canibais.
- Oh, pois é! E se fosse uma melancia do tamanho de uma pessoa?
- Oh, aí até eu a comia!
- Comias, não comias, mãe?
- Comia pois! Todinha!
- Sem pevides, nem nada....
- Oh, melhor ainda! Que delícia!
- Mas não a conseguias comer toda de uma vez...
- Pois não, mas ia comendo devagar. Todos os dias comia um bocadinho. Podes ficar descansado que não se estragava! Especialmente, aquela parte do meio, o coração da melancia!
- E o esófago?
- O esófago?! Mas as melancias não têm esófago!
- Pois não, mas esta podia ter... Ou então comias o meio... E eu comia a parte branca, que é a que mais gosto.
- Comias a casca?
- Sim, já comi casca de banana, de melão, de meloa e agora falta-me a de melancia.
- E gostas?
- Gosto!
- Óptimo! Porque eu gosto mais do meio, é mais docinho. Tínhamos a melancia bem dividida e sem discussões!
- Eh eh eh eh! Pois era!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

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Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

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- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…