Avançar para o conteúdo principal

Assim, do Nada...

Tenho um grave problema com datas.
Lembro-me de datas de aniversários de colegas de infância que nunca mais vi, mas não retive a data da morte do meu avô ou da minha égua. Não memorizo as datas das consultas, análises e tralhas dessas da minha mãe, ou mesmo das minhas.

Hoje, lembrei-me que a égua morreu em Agosto. Pensei "lá para o fim de Agosto". Procurei aqui no blogue pelo post em que falei sobre esse assunto e, no dia 20 de Agosto de 2012, lá estava ele. Já passou um ano. No dia 19, em que fez um ano, não me lembrei. Entretida que estava com as férias, não me lembrei que iria começá-las precisamente no dia em fazia um ano que a égua morreu.
Como tal, também não me lembro quando faz anos que o meu avô morreu. Sei que o perdi algures no mês de Junho. Lá para o meio. Sei isso porque a minha mãe sabe todas essas datas importantes e lembra-me. Se não fosse ela, nem isso sabia.

Mas apesar de não memorizar estas datas, lembro-me, várias vezes, dos meus entes queridos que partiram. Sem data marcada, lembro-me. Assim, do nada, lembro-me. Sonho com o meu avô em dias que não sei localizar no tempo e penso na égua aleatoriamente sem que, às vezes, chegue a perceber o que me fez lembrá-la.

Porém, na semana passada, lembrei-me dela. Assim, do nada, lembrei-me.

Num passeio pelo corredor dedicado a artigos de equitação da Decathlon, a imagem dela apertou-me o coração. Já não preciso de nada daquele corredor, mas é um hábito ir lá ver novidades, procurar pedras de sais ou repelentes para as moscas. Já só o faço por hábito, já não tenho necessidade de lá ir...

Desta vez, dediquei-me a apreciar os arreios. Passei as cabeçadas a pente fino e, ao tocar-lhes, senti o cheiro a cabedal, àquele cabedal que é diferente de todos os outros, o dos arreios.
Todos os cavalos cheiram um bocadinho ao cabedal das cabeçadas e as cabeçadas também ganham o cheiro dos cavalos. São cheiros que se completam. Pertencem um ao outro. Não há cabeçada que se preze que não cheire um bocadinho a cavalo, nem cavalo que não cheire um bocadinho a cabedal. Sem um o outro quase não existe ou está incompleto.
Aquelas cabeçadas ainda não cheiravam a cavalo, não podiam, pois ainda não tinham tocado em nenhum.

Eu, que sou mulher de cheiros, ao inalar a fragrância do cabedal (sim, para mim é fragrância), mesmo sem cavalo, consegui sentir o cheiro a cavalo, mais precisamente o cheiro da minha égua.

Há algo em mim, que renasce através dos cheiros, especialmente do cheiro a cavalo. Pode parecer loucura, mas não é. Talvez só seja entendida por quem trabalha ou trabalhou com cavalos... O odor dos cavalos entranha-se-nos. Passa a pertencer-nos também. Sentimo-nos como a personagem do livro O Perfume que possui os cheiros que inala, mas sem termos que matar o dono do odor.
Todos os cavalos cheiram diferente. Como as pessoas. E naquele dia, foi o cheiro a Heguita que me veio ao nariz. E as lágrimas escorreram-me cara abaixo. Assim, do nada. O J., que estava comigo, preocupou-se e perguntou "mãe, estás a chorar? Que se passa? Estás com saudades da Heguita?". Tentei parar as lágrimas, mas escorriam sem que lhes desse permissão. Escorriam assim, do nada.
A minha cabeça era um turbilhão de imagens que me saltavam diante dos olhos. Passeios a cavalo que fizemos juntas, cólicas sofridas em conjunto, a queda dela na vala da qual foi salva pelos bombeiros, noites em que fiquei dentro da boxe a abraçá-la, banhos que lhe dei, feridas que lhe tratei, e a morte dela, o momento em que fechou os olhos para nunca mais os abrir. E assim, do nada, nunca mais os abriu.

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!