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A Força e a Coragem do Cancro

Quando se fala de e para doentes oncológicos sobreviventes, muitas vezes ouvimos as palavras "força" e "coragem":
"Ai que ela deve ter uma força incrível para aguentar isso tudo!"; "Ele é um homem de coragem para vencer o cancro!"; "É preciso muita força!"; "Só uma mulher de coragem e cheia de força poderia estar aqui tão bem quanto ela está, depois de tudo por que passou!"

TRETAS!

Primeiro que tudo, o cancro não se vence. O cancro, por quem passa, deixa uma espada sobre a cabeça prestes a cair. Ela estará sempre lá, por mais que a tentemos esquecer. E pode cair a qualquer momento. A espada do cancro vai-nos espicaçando um pouco todos os dias para que nos lembremos que a nossa finitude é iminente. Até à data, curar um cancro é uma utopia. Vencer o cancro é outra ainda maior.

Para sobreviver ao cancro não é preciso força nenhuma, nem coragem. É preciso ter essencialmente sorte e bons médicos. E é preciso acreditar que nos vamos tratar, é ter vontade de viver e pôr essa vontade à prova. É deixar os nossos instintos de sobrevivência falarem mais alto do que tudo o resto. Mas força? Coragem? Não!
O doente oncológico vai ao fundo como todas as outras pessoas, só que, geralmente, vai um bocadinho mais fundo. Vê a vida por um fio, vê o corpo degradar-se, faz retrospectivas da vida mais amiúde e escolhe um caminho: deixar-se ir ou levantar-se. E há sempre os que se deixam ir, e que depois se levantam. E há sempre os que não se levantam, mas sobrevivem. E há os que vivem levantados e morrem.

Não há força nem coragem, há instinto de sobrevivência, sorte e bons médicos!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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