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O Corte do Cordão Umbilical Aos Trinta e Oito Anos

Hoje, com 38 anos, finalmente consigo analisar-me sem ressentimentos, sem mágoa, ou revolta...
Falta-me conseguir mudar o que sei que está mal em mim e me faz sofrer. É um nível mais à frente. Talvez ainda tenha muito caminho a percorrer ou talvez nunca lá chegue. Mas sinto que estou numa fase muito importante da minha vida. Esta é a fase da introspecção e aquela que me vai dar ferramentas para me conhecer verdadeiramente. 
Espero eu...

Os meus pais separaram-se quando eu tinha nove anos. O meu pai afastou-se. Fiquei entregue à minha mãe.
Se dissesse que não sofri com a separação dos meus pais, estaria a mentir. Sofri muito, mesmo muito. As coisas que foram ditas e os acontecimentos durante a separação ficaram gravadas em mim como um ferro em brasa.
Com nove anos não entendemos muitas coisas. Aceitamos algumas, rejeitamos outras. E culpamo-nos por outras. A certeza do amor que sentem por nós, mesmo que se esforcem muito para que isso não aconteça, fica abalada. Estremece.
Depois, os anos vão passando e começamos a ter capacidade para entender porque é que aqueles dois seres, que tanto amamos, fizeram e disseram aquelas coisas. O meu pai costumava responder-me "quando fores maiorzinha e tiveres capacidade de entender isto, eu explico-te", quando eu lhe fazia alguma pergunta mais complexa. Detestava que ele me dissesse aquilo. Precisava da resposta naquele momento, não mais tarde. Mas ele negava-ma. (É verdade, pai, mais tarde eu entendi, mas ainda levou muitos anos. Não podia ter sido mais cedo? Se calhar podia... ou não... Não sei. Se tivesse sido mais cedo, talvez eu hoje fosse completamente diferente do que sou. Na dúvida, prefiro-me assim!).

Pelo contrário, a minha mãe sempre esteve muito presente na minha vida. Respondia-me a tudo o que eu perguntava, explicava-me tudo. Talvez até demais. (Nunca estamos satisfeitos, não é?) Mas eu preferia assim.

A minha mãe é das mulheres que mais amo neste mundo, tal como o meu pai é dos homens. Não há dúvida nenhuma nisso, heim! 
Ela é daquelas mulheres que todos admiram. Foi das mais bonitas da escola e das mais inteligentes. Foi sempre "das mais". O brilho que emanava sempre encandeou os outros, homens e mulheres. 
Mesmo agora, quando entra em qualquer sítio, os olhos viram-se para ela. Tem admiradores secretos e assumidos, é boa profissional, escreve como ninguém, é culta, sociável, simpática e das melhores amigas que alguém pode ter. Enfim, é verdadeiramente digna de admiração. E eu admiro-a também e amo-a como ninguém.

Mas, quer querendo quer não, o brilho dela sempre me ofuscou. Não por culta dela ou por ter feito alguma coisa que o proporcionasse, mas pela minha incapacidade de me fazer valer pelas minhas próprias capacidades. 
Os meus colegas de escola adoravam-na. Ainda hoje, sempre que me vêem, perguntam por ela e mandam-lhe beijinhos. Eu gosto que isso aconteça, mas por outro lado, a minha individualidade não sobressai. É como se o cordão umbilical ainda não tivesse sido cortado. 

Ao fim de 38 anos, ainda estou amarrada à minha mãe. Parece incrível, não parece?
Hoje, começo a tentar cortá-lo, mas confesso que é uma tarefa árdua.

De uma forma ou de outra, sempre fui comparada com a minha mãe. Não por ela, mas pelos outros. A inteligência, a beleza, a magreza (que para a minha mãe é sinónimo de beleza), a capacidade de luta, a realização pessoal e profissional. 
Na verdade, fui sempre sentindo a responsabilidade de me se lhe comparar. Sem, porém, nunca o ter conseguido. Nunca fui tão bonita quanto ela, tão inteligente, ou tão bem sucedida. A procura pela minha afirmação pessoal, saiu sempre defraudada porque sempre a tive como modelo daquilo que é ser uma pessoa inteira e realizada. Até que, perto destes meus 38 anos, comecei a vislumbrar o erro que havia em mim e a aperceber-me que nunca vou ser como a minha mãe, porque sou diferente.

É nessa diferença que tenho estado a trabalhar... 

Há uns tempos, comecei a deixar-me engordar, a desprezar qualquer tipo de primor na minha aparência, a rejeitar qualquer tipo de afirmação devido à aparência. Detestei-me, detesto-me fisicamente, mas o lado bom da coisa acabou por aparecer... 
Vi que o homem que amo continua a amar-me independentemente de eu ter mais oito quilos do que devia; vi que há pessoas que continuam a gostar de mim apesar de eu estar disforme; e vi que o centro da vida da minha mãe, apesar de me incomodar estar assim, não é o meu centro. A vida em volta da aparência física, não é a MINHA vida, mas a dela. 
Depois da questão da aparência, vieram outras. Veio a capacidade da escrita, veio a capacidade de luta pela vida, veio a sabedoria e a inteligência...
Comecei a perceber que não tendo as virtudes da minha mãe, tenho outras. Ou até posso ter as mesmas, mas de maneira diferente. Eu sou outra pessoa, não sou ela. Continuo a gostar dela como é, mas já não quero ser como ela, quero ser como eu. Quero fazer coisas à minha maneira, sem estar sempre à espera da sua aprovação, ou a comparar-me a ela. Quero mesmo.

É um passo difícil, talvez até tardio, mas é o meu. 
Espero, finalmente, conseguir cortar o cordão umbilical... 

Sem ressentimentos, sem mágoas ou revolta quero ser apenas...

...EU!

Do Google Images

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