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Amor e Amores

Custa-me sempre falar de amor... Explicar o amor não é coisa fácil... Talvez porque não tenha grande explicação e apenas intuição...
As palavras saem devagar e a saca-rolhas. O discurso não flui como em certos temas mais fáceis. Vem aos soluços, em frases curtas e toscas. Frases toscas como o amor que é tosco, porém sem ser curto...

O amor é tosco e desajeitado, tropeça-nos na vida e faz-nos tropeçar nela. Desequilibra-nos por dentro sem, todavia, deixar de nos reequilibrar. 
O amor é desenhado com linhas ondulantes, não respeita sentidos nem direcções, desliza ao vento dos corações e só termina quando o vendaval se esvai. 

O amor não se encena. A acção decorre sem que nos apercebamos das mudanças de acto. Não há tempo para retomar o fôlego, para pensar ou repetir a cena. Não há ensaio geral, nem noite de estreia. 
O amor leva-nos a percorrer o caminho ondulante que vai descrevendo, sem que tenhamos a percepção se estamos no início, no meio ou no fim. Mas o fascínio do amor é esse: a beleza das pequenas coisas, a incerteza da direcção, a surpresa dos acontecimentos, as ondas do vento que o vai levando...
Não há palavras certas no amor, há palavras belas, que só ganham beleza depois de serem ditas. Não há momentos idílicos no amor, há momentos eternos.
O amor fica, mesmo depois de já ter ido. Incrusta-se-nos na pele e transforma-se numa história interminável.

Pelo contrário, os amores são perfeitos e cinematográficos. Os amores têm a palavra certa no momento certo, têm a rosa e os bombons de presente, o jantar à luz das velas, o beijo de perna flectida, a ida ao colo para a cama, a música romântica, a lingerie e a sensualidade dos movimentos dos corpos enrolados.

Os amores não ficam, vão-se na procura incessante de mais amores. Levam-nos por um caminho definido, que podemos parar, observar, reflectir e rebobinar. Os amores não se querem em esboço, querem-se em obra de arte terminada e pronta a servir.

Por se quererem perfeitos, os amores acabam sempre por ser ensaios gerais em noite de estreia, cujo final só é compreendido porque ali...

... cai o pano.

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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