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Saudades

O tempo traz o vazio, as imagens foscas, os cheiros distantes, o som quase inaudível. 

Ela longe, deitada no chão, a adormecer. Eu ao lado, dorida, magoada, sofrida. O choro já não está nos olhos, mas na pele. Tento limpar as lágrimas que me percorrem as veias. Não saem. E faço-lhe festas. Sinto o pêlo que tão bem conheço. Acompanho as últimas inspirações. Será esta a última? Pergunto-me. Será agora que me vai deixar? Os olhos quedos, cerrados. O corpo ainda quente. Que estará a sentir agora? Estou a perdê-la. Perdia-a! Mas o corpo ainda ali, a poucos minutos de ter caído por terra. Está cheia de terra. Quero limpá-la. Quero que se levante. Mas já não se levanta. Cheiro-a. É ela, a minha égua, que se vai embora. Era. A partir deste minuto, foi. E deixou-me aqui sozinha a querer abraçá-la.

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O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

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