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Problemas de Expressão

Fui a uma reunião em que me passei. Tinha umas tantas verdades atravessadas na garganta, que me saíram de enxurrada. Disse tudo o que há muito tempo devia ter dito. Como não fui dizendo aos poucos, fui acumulando e, nesse dia, o da reunião, despejei o saco. Parecia uma metralhadora a disparar, não em todas as direcções, mas na direcção que eu queria. Disparei, disparei, disparei... Até que vi o meu alvo a enfiar-se cadeira abaixo. Fui abrandando os disparos, sem, no entanto, os cessar.  
Quando guardamos demasiada tralha velha no armário, ela começa a apodrecer. É mais acertado ir deitando fora o que não interessa progressivamente, à medida que vai entrando em desuso. Mas neste caso, eu não fiz isso. Por achar que as coisas se iam resolvendo, por achar que o meu alvo não era um alvo estático, que evoluiria, e que essa evolução o iria ensinar a deixar de ser tão merdas. Enganei-me. A merda continuou sempre a mesma, e pior, agudizou-se. Veio com prepotências e armada com condições e mais condições (como se estivesse em condições de condicionar alguma coisa ou como se tivesse alguma moral para falar sobre o que tentou falar). A mostarda subiu-me ao nariz, coisa que raramente me acontece, pois vou expiando os maus fluidos, em doses pequenas, mas com uma periodicidade maior. Desta vez, acumulei, por isso me saíram a jacto.

Depois da reunião, fui contando os acontecimentos à minha mãe, com o J. a ouvir algumas partes (não todas, mas algumas).
Às tantas, ele interrompeu-nos a conversa e disse:
- Ah "granda" mãe! Como é que consegues exprimir tão bem os teus sentimentos?
A avó explicou-lhe que as pessoas, à medida que vão crescendo, vão conseguindo, cada vez melhor, exprimir-se. Pareceu-me que entendeu mais ou menos a explicação da avó, mas aquela pergunta ficou-me aqui a martelar na cabeça...

O J. tem alguma dificuldade em exprimir os sentimentos negativos. A dor (não a física, mas a emocional), o desagrado, a revolta, a indignação, são assuntos que não lhe saem facilmente. Tem, talvez, algum pudor em pô-los para fora. Quando está mal, tenho que lhe arrancar tudo a saca-rolhas. Até os pesadelos lhe custam a contar. 
Digo-lhe várias vezes "tens que contar para eu te poder ajudar", "se contares o sonho mau, ele vai embora mais cedo".
Quando o caso é uma asneira, tenho que lhe prometer que não vou ralhar com ele para que me conte. E depois não ralho, tal como prometi. Explico-lhe porque não deve fazer aquela asneira e tento que ele se coloque no lugar das "vítimas" da sua asneira. Mas ele fica, normalmente, cheio de problemas com o que fez, problemas de consciência. Talvez por isso, raramente repete essa asneira. E eu fico a pensar se faço bem. Fico na dúvida se devia ou não lidar com ele desta forma. Se não haverá uma maneira melhor para que ele não fique com problemas de consciência. Afinal, ele é uma criança e todas as crianças fazem asneiras... irresponsavelmente fazem asneiras. Talvez eu, ao incutir-lhe um sentido de responsabilidade por aquilo que fez, o esteja a amedrontar sobre o que poderá vir a fazer e a obrigá-lo a responsabilizar-se cedo demais por actos que são naturais nas crianças... Talvez eu não o conforte como devia... Talvez o tome como mais maduro do que ele é na realidade e o deixe confuso na gestão de sentimentos tão complexos...

Não sei. Só que sei que acho que podia fazer melhor, que DEVIA fazer melhor. Quem me dera saber como...

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Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

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