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Os Comprimidos

Fui com o J. à farmácia. 
Já no carro, ele pergunta-me:
- Para que são esses comprimidos, mãe?
- É a pílula. - respondo.
- Sim, mas é para quê?
- Para não ter filhos.
O rosto do J. torna-se lívido, os olhos trejeitam pânico, meio a gaguejar deixa sair um:
 - O quê?
- Estes comprimidos servem para não ter mais filhos.
- Mãe, não estás a falar a sério, pois não? Olha que já me está a dar vontade de chorar...
- Oh J., eu agora não quero ter mais filhos, por isso tomo estes comprimidos. Mas não precisas ficar assim. - digo tentando amenizar a coisa.
- Quanto tempo é que isso dura?
- O quê? O efeito?
- S-sim.
- Dura o tempo que eu tomar os comprimidos.
- Então, pára já de os tomar! Sabes que muitos remédios fazem mal, não sabes?- diz ele em estado de alerta.
- Sim, eu sei, mas agora não quero ter filhos, por isso é que os tomo.
- Mas eu quero ter um irmão... Antes dos dez anos.
- Pois J., mas não és tu que decides isso. Quando eu quiser ter outro filho paro de tomar os comprimidos e, pronto, já posso ter filhos outra vez.
- Quando tu e o pai quiserem.
- Sim, quando eu e o pai quisermos.
- Esses comprimidos dão para quanto tempo?
- Para um mês.
- Um mês inteirinho?
- Não, na verdade, dão para 21 dias, e depois, nos outros sete, vem-me o período.
 - O que é isso?
- É deitar sangue pelo pipi.
- Blhac, que nojo! E os comprimidos não tiram o sangue do pipi?
- Não. Se não os tomasse, deitava sangue pelo pipi na mesma.
- Não há comprimidos para isso não acontecer?
- Ah ah ah! Não. Há bocado não querias que eu tomasse comprimidos, porque fazem mal, e agora já queres outros comprimidos para eu não ter período?!
- Pois... mas isso é nojento.
- Mas é assim. 
- Porque é que deitas sangue do pipi?
- Não deste o aparelho reprodutor na escola?
- Dei, mas não aprendi muito bem... Explica-me!
- Ok. O sangue são os óvulos, que não são fecundados pelos espermatozóides, que saem. Todos os meses, eles saem dos ovários e descem pelas trompas, em direcção ao útero, para serem fecundados por espermatozóides. Se não são, saem cá para fora.
- Ah, o sangue são os óvulos! Os espermatozóides vão todos a correr, mas só um é que consegue chegar ao óvulo, não é?
- É. E só não tenho período se estiver grávida, ou seja, se tiver um bebé a crescer na barriga.
- Ah, já percebi. Mas mãe, eu quero ter um irmão...
- Isso depois vê-se, ok?

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
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"Bom dia e as melhoras!"

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- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…