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Odores Mortíferos

Toda a gente sabe que os transportes públicos não transportam só pessoas. Há um mundo a viajar por aí de um lado para o outro. 
Toda a gente sabe que as pessoas não são inodoras. Umas cheiram bem, outras nem tanto assim.
Os transportes públicos transportam cheiros, para além das pessoas que neles viajam.

Numa das minhas viagens diárias de comboio, fiquei sentada em frente de uma rapariga que falou ao telefone durante todo o percurso. Até aí, nada de especial. 
Não fosse a dita rapariga ter um hálito terrível, eu não teria esta história para contar...
Durante esta tenebrosa viagem, tentei de tudo: cheirar as minhas mãos, virar a cara para o lado, snifar o livro que estava a ler, deixar de respirar... Mas não serviu de nada. O cheiro que a boca da menina exalava, vinha sempre de encontro ao meu nariz.
Rezei para que ela acabasse a conversa, mas claro, de nada adiantou, a rapariga tinha imenso que contar a quem estava do outro lado do telefone. 
Acabei por dar por mim a desejar que ela deixasse de ter rede no telemóvel; que houvesse uma travagem brusca que lhe fizesse saltar o telefone das mãos e o inutilizasse, pelo menos durante o resto da viagem; que algum "louco piedoso dos narizes ofendidos" lho arrancasse da mão e a impedisse de continuar a falar. Não aconteceu nenhuma das minhas preces, infelizmente, e tive que gramar aqueles jactos de mau odor o resto do caminho.

Mas o mau-hálito daquela menina não foi nada, se o comparar com o ultraje que o meu nariz sofreu hoje...
Uma outra menina teve o desplante de se sentar ao meu lado, depois de ter tomado banho em perfume de senhoras idosas com problemas olfactivos graves. 
Hoje, ia morrendo pelo nariz! O cheiro nauseabundo daquela essência dos diabos, apoderou-se de mim até aos ossos! Carreguei uma cruz fétida durante todo o trajecto que separa a estação da minha terra da estação da terra onde trabalho. E no final, saí crucificada!

O vómito teimava em tentar sair-me goelas a fora. E eu continha-o. 
A senhora que viajava à minha frente tapava discretamente o nariz. Eu, que já tinha atirado o discretamente pela janela fora, há muito tempo, tapei o nariz com a manga do casaco. Pensava "hoje, não é um bom dia para morreres, aguenta firme!" e intercalava o "respira o casaco, respira o casaco" com o "não vomites, não vomites".
Perguntei-me como suportaria, aquela rapariga, aquele cheiro, já que não se podia afastar dela própria. Óbvio que não encontrei resposta. Mas encontrei a porta do comboio uma estação antes da minha e ali fiquei na esperança que a mocinha não saísse na mesma paragem que eu, ou se o fizesse, se dirigisse a outra porta que não aquela.
Quando, finalmente, pensei que lhe tinha escapado e dei duas respiradelas convictas do ar puro da estação, vem-me o cheiro de novo ao nariz. 
Primeiro pensei que ele se me tinha colado aos pêlos nasais e que bastariam mais duas snifadelas de ar puro para afastar aquele mau-olhado dos cheiros, depois olhei para o lado... E lá estava ela, bela e perfumada, a espalhar o seu odor mortífero no ar que eu julgava puro.

Se não tivesse já saído da plataforma da linha do comboio, juro que me teria atirado para a frente do primeiro que aparecesse, mesmo não sendo este um bom dia para morrer!

Nariz roubado do sítio do costume

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