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Inspecção Periódica Obrigatória - IPO

Hoje, foi dia de IPO, ou Instituto Português de Oncologia, ou Inspecção Periódica Obrigatória. Escolham a definição que preferirem, mas vai tudo dar ao mesmo.
Foi dia de alterar a data das análises da tiróide para uma mais próxima da consulta, de fazer o raio do X (raio-X) e de fazer análises para a consulta de hematologia. 
O regresso ao IPO nunca é encarado de ânimo leve. Assaltam-me pensamentos menos bons sempre que lá estou. É como viajar no tempo e aterrar em cheio no ano de 2006. Volto a ver pedaços de gente num sofrimento atroz, recordo perucas e cabeças sem pêlo, revejo caras de pele cinzenta, corpos demasiado magros ou demasiado inchados. A dor está estampada em quase todos os rostos, as vidas apenas se seguram por um fio, a revolta e a vontade de abandonar os próprios corpos traidores, lêem-se nas expressões. A ponderação de prioridades e o desespero é texto corrente naquele lugar.
E recordo-me de mim, sete anos atrás, ali à espera de mais uma sessão de tortura, à espera de mais uma sentença de vida, ou de morte. Lembro-me do mal-estar; do cansaço; da agonia; do sono provocado pelos anti-histamínicos; dos fios de cabelo que caíam aos molhos; das dores de garganta causadas pelas radiações; da escassez de saliva que não me deixava comer; dos fungos, que decidiram vir morar na minha boca; do corpo deformado; da alma trucidada; e da imagem do J. sempre sorridente, alegre e ingénuo, a nascer enquanto pessoa, ali mesmo diante dos meus olhos.
E o medo de perder aquela imagem e deixar de acompanhar aquela maravilhosa escalada na vida, que era a dele, apoderava-se de mim. Medo este, maior do que o medo da minha morte. Deixei de ter medo de morrer ali, naquele espaço de gente moribunda. Irónico, não?
Nos momentos em que via aquela pequena criatura, que nada percebia do que se passava, o amor rasgava o meu peito com uma intensidade lancinante, quase insuportável. Não podia ter a audácia de perder o desabrochar daquela flor, seria uma traidora, tal como o meu corpo fora, quando me virou as costas naquele instante tão importante da vida do meu filho. Não podia abandoná-lo a um crescimento órfão. Simplesmente, não podia.
Mas a vontade de desistir segredava-me palavras de desânimo ao ouvido, fazia-me confissões de derrota, tentava demover-me da luta.
E era aí que ele vinha pedir os meus braços, negros pelos químicos que os percorriam; era aí que soltava "mamãs"; era aí que me dava beijos cheios de baba ternurenta; era aí que me apercebia quão alheio ele estava ao estado decrépito da mãe, que nem a distinguia da mãe de outrora, e era aí que meu coração esfarrapado se enchia de um amor gigante, que já não doía, e de vida, até. E era aí, que uma erupção de felicidade me assaltava, e me gritava "estás viva, porra! Tens que continuar assim, se queres continuar a senti-lo no teu peito! Agarra-te a essa brisa de afecto e não a largues mais!".
Ouvi as palavras dela e gravei-as no meu cérebro. Quando a vontade de desistir, me vinha com segredinhos maléficos, olhava para o J. e fazia ecoar aquelas palavras de alento. Se é culpa de alguém eu continuar a ir às Inspecções Periódicas Obrigatórias, essa culpa é dele, do J., que me obrigou a olhá-lo com olhos de ver, que impediu que me abandonasse à sorte, que me iluminou com os seus olhos de amor quando eu era escuridão e, nada mais.

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