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Expurgação

Este blogue tem-me dado a conhecer um prazer que desconhecia: o prazer da escrita.
Ao longo deste ano e tal a escrever neste espaço, tenho-me apercebido que, cada vez, gosto mais de escrever e, por estranho que pareça, que me faço entender melhor por escrito do que oralmente. 
Além de ser um gosto recém-descoberto, a escrita permite-me expressar alguns sentimentos e pensamentos que, de outra forma, não expressaria. Deixá-los-ia escondidos dentro da minha cabeça e ficariam aqui nas profundezas do meu cérebro para a eternidade. O que seria uma pena. Não por os pensamentos serem alguma coisa de especial, que não são, mas porque eu tenho um mundo a acontecer dentro de mim muito maior do que o que tenho fora.
Este mal de que sofro, a constante inquietação e interrogação, acaba por ser expurgado no papel, ou melhor, neste caso no ecrã do computador. E quando expurgado, não conspurca tanto a minha mente, que sofre amiúde por não encontrar respostas às inquietações com que se cruza a cada esquina desta vida.

O expurgado, não sei se servirá para algo mais do que para esta limpeza de alma, mas se apenas se cumprir nesta função, terá executado a sua missão em pleno.

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Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou: - Como te sentes hoje? - Mais ou menos. Agora, não tenho dores. - Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa? - Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar. - Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer. Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela. - Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada. - Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho: - Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr? Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não es…

Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

Por momentos, desvio o olhar dos livros para perceber o que se passa à minha volta. Entram e saem pessoas do supermercado. Há um homem que passa de guarda-chuva em punho como se fosse uma…

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Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim. É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou.  - Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora. - Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do li…

Marcadores: Capítulo 1

Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo. Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida. Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sent…