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O Clone

Imagem DAQUI
- Já há clones, mãe?
- Já houve, pelo menos, a ovelha Dolly!
- Uma ovelha? A ovelha morreu?
- Morreu.
- De quê?
- Não sei, acho que de uma doença qualquer.
- Era um clone de quem?
- Da mãe.
- E o que aconteceu à mãe, ainda está viva.
- Não sei, talvez.
- Se calhar ainda anda para aí a fazer "méééé".
- Eh eh! Se calhar...
- E pessoas?
- Que se saiba ainda não há clones de pessoas. 
- Oh!
- Mas devem andar a trabalhar nisso... Querias ter um clone teu?
- Igualzinho a mim? De cérebro e tudo?
- Sim.
- Queria.
- E o que é que fazias com ele?
- Oh, não sei...
- Mandava-lo ir à escola por ti?
- Sim, boa! Ele ia às terças e quintas e eu ia às segundas, quartas e sextas.
- Mas assim ele ia mais vezes do que tu!
- Pois, olha, eu também quero aprender! E tu, mãe, também gostavas de ter um clone teu?
- Eu não! Já viste o que eram duas chatas iguais a mim? Já chega uma!
- Eu gostava que tu tivesses um clone.
- Gostavas? E tinhas paciência para aturares duas como eu?
- Duas não, uma. Se fossem duas como tu, já eram três.
- Não, eram duas. Era eu e a euzinha.
- Ah ah ah ah! Não, mãe, duas como tu, são três, porque são como tu.
- Não, J. sou eu, que sou como eu, e a outra, a clone, que também seria como eu.
- Pronto, está bem. Mas não gostavas, nem que fosse para ir trabalhar por ti?
- Oh sim, para ir trabalhar por mim já gostava.
- E o pai? Se fossem dois pais?
- Eh lá, o pai é que não! Ah ah ah! Não, estou a brincar!
- Se eu tivesse dois pais, quando lhe perguntasse "queres ir comer um gelado?", teria dois a repetir a minha pergunta "se quero ir comer um gelado?", antes de me responder. Ah ah ah ah! E gatos, mãe? Se tivéssemos um clone do Gatossoa?
- Nãaaaaao! Dois gatos a infernizarem-nos a vida é que já é demais!
- Estávamos tramados, não estávamos, mãe?
- Tramadíssimos! Só poderíamos ter dois gatos destes, se fôssemos seis. Já viste o que seria se nós só fôssemos três e tivéssemos dois gatos destes?
- Ah ah ah ah! Nem quero pensar... Só podíamos ter um clone do gato se já tivéssemos os nossos!
- Ah ah ah ah! Pois era.  

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"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

A sesta

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Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…