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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2013

A Irreverência da Treta

A frontalidade com que se dizem banalidades mascaradas de uma grande coisa arrepia-me os pêlos dos braços. Não. Arrepia-me a inteligência. 
Vangloriar-se o olhar obtuso limitado por palas, como as dos burros que puxam carroças, emoldurado em palavras bonitas (mas ocas) que iludem o melhor dos intelectuais, é uma ardilosa trapaça. É uma trapaça de quem, com o poder da oratória, ou da escrita, colecciona apóstolos fiéis e cegos.  A incapacidade da dúvida, a certeza do pensamento insípido já delineado por outrem, delimitado por estereótipos ultrapassados e carregados de fundamentalismos religioso-moralistas, assassinam neurónios e petrificam intelectos, que se libertos da profissão de fé a líderes menores, poderiam gerar frutos. Barbaridades gritadas aos sete ventos, recebidas em ovação por um bando de gente vazia, não me arrepiam, enfurecem-me. 
A irreverência é tão só essa, a de cuspir lixo como se de ouro se tratasse.

Pontapés de Amor

Em conversa pré-sono:
-Então J., como vão os namoros? Há novidades? -Há!  -Conta, conta! Voz baixinha, como se estivesse a contar um grande segredo: -Pontapés! -Pontapés?! -Sim, a D. tentou dar-me pontapés! -A sério? -Sim. Aqueles pontapés de quem não os sabe dar. Olha! - destapa-se e levanta a perna devagarinho e a direito até mais ou menos à altura da cintura. -Humm! E tu o que fizeste? -Fugi, claro! E ela foi a correr atrás de mim. Está mesmo apaixonada, não está? -Pois, deve estar...  -Sabes, nem todos os pontapés querem dizer que as pessoas, que os dão, estão apaixonadas por nós? Quando te disse isso, estava a referir-me a um tipo específico de pontapés que certas meninas dão aos rapazes, quando estão apaixonadas. -Sim, eu sei, mas a D. está apaixonada por mim. Além dos pontapés, ela já me disse que gostava de mim. -É verdade, já me tinhas contado. E se ela te deu pontapés desses hoje, deve estar mesmo!

#17 Músicas Que Entranham

O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

O Silêncio de Miguel

Ah e tal, coitadinho do Miguel Relvas, que ninguém o deixou falar.  Ai não? Alguém lhe tapou a boca? Alguém o mandou prender? Agarraram-no, quando se preparava para falar? Apontaram-lhe uma pistola à cabeça e ameaçaram-no se falasse? 
Nas imagens que vi, não aconteceu nada disso. Escapou-me alguma coisa?
As pessoas mostraram o seu desagrado? Falaram mais alto do que ele? Gritaram? Sim.  Isso impediu-o de falar? Não!  Ele podia ter falado, enquanto as pessoas gritavam, não podia? Só não falou, porque não quis.  Se ele quisesse assim tanto falar, tinha falado, ou não? O barulho apenas poderia impedir que as pessoas o ouvissem. 
Está tanto no direito delas, não o quererem ouvir, como no dele, falar. Ou não? Ou o direito de ele falar é superior ao direito das pessoas de não o quererem ouvir? Ou o direito das pessoas expressarem a sua vontade de não o quererem ouvir é inferior ao dele de se querer fazer ouvir? Em que é que ficamos? Hã?

Percebemos que somos umas fundamentalistas da alimentação saudável, quando...

... compramos umas simples bolachinhas com pepitas de chocolate e o nosso filho, mal as vê, faz uma festa e diz: -Eh mãe, adoro essas bolachas... Quando é que as compraste? Agora, vais comprá-las sempre, pode ser?

Ando a Ver Isto:

O pai do J. pegou-me o "bichinho" do Hank Moddy e agora estou viciada neste viciado.  Perante este quadro patológico, só mesmo este remédio:
 Eh eh eh eh!!!

Estou a Ficar Velha

A prova disso é que cada vez tenho menos paciência para tricas, mesquinhices, conversas da treta.

Nevoeiro

Hoje de manhã, o J. olha pela janela e, com um sorriso malandro, diz:
- Mãe, é hoje que o D. Sebastião vai voltar!
- Ai é?
- É, olha só o nevoeiro que está!


"Grândola, Vila Morena"

Nasci em 1975, um ano após o 25 de Abril. Cresci a ouvir Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, entre outros cantores, ditos, da Revolução dos Cravos. É verdade que não a vivi, nasci um ano depois de ter acontecido, mas ela está enraizada em mim através das histórias dos meus pais e da minha avó, das letras das músicas que ouvia, dos livros que fui lendo...
Foi através da arte e irreverência de gente, como as do Zeca Afonso, que fui tendo a percepção de que é a união de um povo que faz a força desse mesmo povo; da importância da luta pelos direitos (e deveres) de todos, especialmente dos direitos dos mais fracos; da ideia que o bem-estar de cada um de nós é o reflexo do bem-estar de todos nós, e não o contrário; e de alguns ideais, que alguns apelidam de Marxistas, ou comunistas, mas a que eu chamo de humanistas.

Por isso, e por a Grândola, Vila Morena ser uma música que me traz, sempre, as lágrimas aos olhos, é que, quando ouvi estas pessoas cantarem esta canção em plena As…

O Elogio

O J. não gosta de beleza artificial. Mulheres muito maquilhadas (mesmo quando são muito bonitas), acha-as horríveis. Saltos altos, nem vê-los, "mãe, tira isso!". Colares e decotes ousados, fazem-lhe confusão.  Beleza natural, cara lavada e poucas "espampanâncias", já são a área dele. Fascina-se com a foto de uma modelo que decora uma montra perto da casa da avó, que tem pouca maquilhagem e pele lisinha.  No entanto, ele sabe que eu pinto o cabelo. Aceita o facto, porém sem o apreciar muito.
No outro dia, estava na casa-de-banho a pentear-me, quando o J. entra. Olha para a longa cortina de fios loiros a serem escovados, esboça um sorriso, entre o deliciado e o "não sei se hei-de gostar disto ou não", e diz: - Mãe, desta vez, pintaram-te muito bem o cabelo!


Vindo dele, isto era um elogio.
Sorri-lhe.

Filho Tecnológico

Quando nos vamos sentar à mesa para jantar, o pai pergunta:
- Vamos ouvir uma musiquinha?
- Boa, pai! Põe Pixels! - diz o J.
- Pixels?!
- Sim, pai, aquele grupo que ouvimos no outro dia. Aquele, de que eu gostei...

- Pixies, J., Pixies!

#16 Músicas Que Entranham

Dores Na Alma

Há dores que não vêm sozinhas. Há dores que não têm origem no sítio que dói. Há dores que são apenas o reflexo de outras dores. Mas doem, doem muito.

Dão-se voltas e mais voltas à procura do lugar preciso a aplicar o curativo. Põe-se aqui, põe-se ali, e não passa. Esfrega-se, massaja-se, e nada, continua a doer. Não há ferida ou contusão visíveis, não há inchaço, ou hematoma, mas a dor, essa, continua lá. Aplica-se gelo no sítio que dói. O gelo frio, insípido e cru, poderoso anti-inflamatório, atordoante da dor, não faz efeito.

Dá-se o abraço, a festa na cabeça, o colo, o beijo na face. Dizem-se palavras de alento e consolo, beija-se o ego e acaricia-se a alma. Enfim, serena a dor.

É Para Partilhar. Ah, Pois é!

Tomei conhecimento da existência deste vídeo através da Pólo Norte e da Mum's the Boss.


Ele conta-nos a história do Ariel, um rapaz, portador da síndrome de Down, que é hoje um actor reconhecido no Brasil e que tem um sonho muito especial: 
Que o Sean Penn vá assistir à estreia do seu novo filme, Colegas, sentado ao seu lado na plateia.
Por isso, este vídeo é tão importante e precisa de ser partilhado, tantas vezes quantas as necessárias, para chegar aos olhos e ouvidos do Sean Penn. Vamos partilhar e ajudar o Ariel a realizar o seu sonho?

Grito de Alerta

Guardei a vontade dentro de uma lata de atum, cuja pega, que permite abri-la, se partiu.
Tenho vivido num estado de embriaguez induzido, tenho fingido, sim fingido, que está tudo bem, que sou eu que estou aqui. Mas não está, não sou.  A minha vida tem sido uma farsa, da qual não tenho conseguido sair. Arrasto os dias, que deixo passar, sem me aperceber se realmente existiram. A vontade de correr e não parar mais é enorme, mas não corro, sigo devagar, tão devagar que me sinto parada, petrificada na minha inacção.

E olho a vontade, dentro da lata... E a pega partida...

Evito o espelho que reflecte aquela que não sou, aquela que criei num intenso impulso de medo, medo de mim e de me ver. E fujo, escondo-me do meu olhar recriminador para não me detestar mais.
Mas continuo a odiar-me em silêncio, nos poucos momentos de lucidez que me assaltam. Aí, as lágrimas teimam em soltar-se dos meus olhos, prendo-as, prendo-as com força para que não me dêem a impressão, com a sua frescura e sabor sal…

Vou Contar-vos Um Segredo #7

Tenho cá para mim, que se a parvoíce matasse, já tinha visto uma certa pessoa cair como que fuzilada no chão, vezes e vezes sem conta. Sempre que ela abre a boca, sai asneira. É que nem dá tempo para lhe entrar uma mosquinha pelas goelas adentro, porque a asneira sai rápida como uma flecha. Se não fosse a santa paciência que fui aprendendo a cultivar para aturar abéculas de tão grandes dimensões, já a tinha, eu própria, fuzilado, visto que a parvoíce não se encarrega disso!

Dói

Pensei que só tínhamos andado para trás até à época do Estado Novo, que só a censura, um pouco dissimulada, é certo, mas a censura, tivesse voltado. Enganei-me. Afinal, andámos tão para trás que chegámos ao tempo da Revolução Industrial. Não em termos de desenvolvimento económico, ou tecnológico, mas em retrocesso humano e social.  As pessoas, depois de passarem todas as épocas de renovação e estímulo intelectual, como o humanismo, o iluminismo, ou o renascimento, deixaram, novamente, de ser consideradas pessoas e voltaram a ser mão-de-obra. Mas a mão(-de-obra) só é assim considerada se não tiver nenhum problema nas unhas ou nos dedos, caso contrário, nem sequer é vista como mão.  Sinto a sociedade a suicidar-se, a aniquilar tudo o que foi construído à custa de muitas mãos, pés, cabeças e vidas.  E isso dói. 
O valor das pessoas ser equivalente àquilo que conseguem produzir, ao dinheiro que conseguem gerar, está a provocar uma dor profunda no meu peito. Despedirem-se trabalhadores po…

Três Tristes Totós

Estação. Plataforma da linha do comboio.  Três Tristes Totós armados em homens. Um, com ar de mau, carrega consecutivamente no botão de chamada do elevador, as porta abrem-se logo após se fecharem, vezes sem conta. Os outros dois riem-se. "Ya, o nosso amigo é bué de rebelde, vejam só como ele abre tão bem as portas do elevador! Yé, meu, bué de nice!" Passa uma rapariga em calções curtinhos. Os Três Tristes Totós olham-na com um ar ainda mais totó do que o inicial, quase salpicando a baba, que lhes molha os cantos da boca, nas pernas dela. Passam mais duas raparigas, desta vez ambas com o cabelo cor-de-rosa. Os Três Tristes Totós olham-nas e riem-se bem alto. O totó, encarregado da porta do elevador, carrega mais uma vez no botão. "Ui, que sou assim, tipo... tão mau!". Todos os Três Tristes Totós são jovens, mas com idade para já terem alguma coisa dentro da cabeça. Não têm, apesar de já lhes terem nascido alguns pentelhos na cara, a que chamam barba.  Passa mais u…

O Clone

- Já há clones, mãe? - Já houve, pelo menos, a ovelha Dolly! - Uma ovelha? A ovelha morreu? - Morreu. - De quê? - Não sei, acho que de uma doença qualquer. - Era um clone de quem? - Da mãe. - E o que aconteceu à mãe, ainda está viva. - Não sei, talvez. - Se calhar ainda anda para aí a fazer "méééé". - Eh eh! Se calhar... - E pessoas? - Que se saiba ainda não há clones de pessoas.  - Oh! - Mas devem andar a trabalhar nisso... Querias ter um clone teu? - Igualzinho a mim? De cérebro e tudo? - Sim. - Queria. - E o que é que fazias com ele? - Oh, não sei... - Mandava-lo ir à escola por ti? - Sim, boa! Ele ia às terças e quintas e eu ia às segundas, quartas e sextas. - Mas assim ele ia mais vezes do que tu! - Pois, olha, eu também quero aprender! E tu, mãe, também gostavas de ter um clone teu? - Eu não! Já viste o que eram duas chatas iguais a mim? Já chega uma! - Eu gostava que tu tivesses um clone. - Gostavas? E tinhas paciência para aturares duas como eu? - Duas não, uma. Se …

Eles Eram Gays?

Este é o livro que andamos a ler, neste momento...

Hoje, lemos a parte dedicada a D. Sebastião e à Batalha de Alcácer Quibir. Quando chegámos à frase "O sonho de D. Sebastião tinha causado muitos milhares de cadáveres, mas também a morte de um rei português e de dois árabes, o que fez com que este combate ficasse também conhecido pelo nome de Batalha dos Três Reis", o J. pergunta: - Eles eram gays? - Gays? Quem?  - Os reis árabes... - Porque dizes isso? - Então... se morreram dois reis árabes... - Ah ah ah ah ah ah ah!!! Mas eles não eram casados um com o outro... Devia ser um rei de cada terra... - Ah, ok!

História

Andamos a ler estas histórias da nossa História. O J. adora saber tudo sobre os nossos Reis e sobre o tempo em que Portugal era "quase" dono do mundo.  Estamos no terceiro livro, que não é este da imagem, e ele já aprendeu imensas coisas sobre os (bem) feitos e os (maus) feitos dos portugueses. Vejo-o sentir algum orgulho em ser português e contente por não termos sido sempre este povo triste e resignado de hoje. Valha-nos a História e o tudo o que ela tem para nos ensinar!

Ser Adultos

J. - Pai, não sei como é que vocês conseguem... Pai - O quê, J. ? J. - Ser adultos... Tu e a mãe... Pai - Porquê? J.- Vocês são tão criançolas...
Pois, J., na verdade nós não conseguimos, só parecemos que conseguimos...

Keep Calm, o Cara%$&/(&/)(=)/%%&#%$(/!!!!

Chamem-me o que quiserem, mas não suporto esta história do keep calm!

Keep calm porquê? Porque não podemos ter "pêlo na venta"? Para que é que é preciso keep calm para fazer coisas tão estúpidas como comer bacon? Talvez por ser serena por natureza, valorize mais quem ferve por dentro, e me irrite tanto este incitamento à calma, ou talvez porque relaciono sempre a calma à passividade... Não sei...  Mas lá que me irrita, irrita, e não é pouco!