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Sem-Abrigo, Mas Com Dignidade

Entrou no café. Aspecto andrajoso, samarra a proteger-lhe o corpo, boca sem dentes. O dono do café dirigiu-se-lhe. Rapidamente, pegou nuns talheres e encaminhou-o para uma mesa na esplanada. Pediu que se sentasse. Trouxe-lhe uma sopa e afastou-se. 
O homem comia a sopa devagar. Apenas duas colheradas seguidas. O estômago, habituado ao vazio, não aguentava mais que duas, apesar da fome querer a sopa de uma assentada. Vinte minutos para comer uma sopa, igual à que eu comi em cinco.
Mal acabou a sopa, o homem pegou na tigela e deixou-a no balcão, num gesto mais educado do o de qualquer outro cliente limpinho e engravatado. Dirigia-se à casa-de-banho, quando eu saí.

Fiquei com aquele homem às voltas na minha cabeça, o resto do dia...

Tomado pela fome, ia ao café onde lhe davam uma sopa, em troca de se sentar numa mesa da esplanada, o mais longe possível dos restantes clientes. Afastado dos olhos de quem podia pagar a sopa e mudar de roupa todos os dias, a dignidade dele não se abalou. Admirei-o tanto. E desprezei-me tanto por pertencer aos que de, uma forma ou de outra, o querem longe da vista e do coração. Senti-me um animal que rejeita a cria mais fraca. Senti-me reduzida à minha insignificância de quem pode pagar uma sopa. 

Ficamos tão pequeninos perante a dignidade de quem não se deixa abalar pelo desprezo vil de uma sociedade consumista...Tão pequeninos, tão pequeninos que somos, afinal.

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Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

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