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Resquícios da Quimio

Quando fiz quimioterapia, o J. tinha entre um e dois anos. A minha vinda dos tratamentos implicava ter a avó cá por casa a ajudar o pai a tratar de mim e dele, ver-me sempre na cama em sofrimento ou mal-estar, ser a avó a levá-lo ao infantário no dia seguinte e ser ele a ir dar-me um beijinho, tanto de boa-noite como de despedida de manhã.

Ontem, cheguei a casa com um torcicolo tal, que não conseguia fazer nada sem ajuda. E nada, quer mesmo dizer nada, inclusive virar-me na cama. 
A minha dor e sofrimento, assustaram o J.! Ver a mãe deitada, a avó por cá a ajudar-me e o pai a tratar dele sozinho, e também de mim, devem tê-lo reportado para aqueles seis meses, que eu pensava que não lhe tinham deixado grande mossa por ser tão pequenino. Mas, na verdade, eles ficaram lá meios adormecidos e arrumadinhos numa qualquer gaveta do seu ainda pequeno cérebro, mas lá. E resolveram reaparecer agora. 
O J. deu-me muitos beijinhos, só queria a mamã, perguntou-me várias vezes se ainda me doía, deitou-se ao pé de mim a fazer-me companhia, leu as bulas dos medicamentos, queria fazer-me uma massagem, enfim, estava tão desejoso de me ver bem outra vez, que denotava uma aflição pouco normal dada a pouca gravidade da situação.

A quimio é um tratamento doloroso que não deixa só marcas em quem passa por ela, mas também em quem, apesar da tenra idade, a vê acontecer a entes queridos. Malvada (bendita) quimio!

Imagem retirada da Internet

Comentários

  1. O seu rapazinho tem certamente uma inteligência bastante acima da média, normalmente uma criança na idade em que começa a falar (por volta dos dois anos) não regista conscientemente situações, mesmo que traumatizantes.
    A quimio é muito marota, mas cada vez está mais "aperfeiçoada" e adaptada a cada caso.
    No tempo em que estive doente, não havia ainda tratamentos desse tipo, éramos tratados com radiações.
    Já passou! É preciso que o seu filhote interiorize que às vezes, por diversos motivos, a mãe ou outra pessoa que ele conheça, também têm maleitas como as "crianças", podem constipar-se, ter dores de cabeça, ...
    Abracinho meu!

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  2. filho sofre, e bastante, com o mal dos pais. pior ainda quando já tem marcas indesejáveis de um passado, sempre, presente nas suas cabecinhas.

    bj...nho

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  3. Maria Teresa,
    Eu tive "direito" a tudo: quimio e radio.
    A radio, apesar de ter sido bem mais dolorosa para mim, pois fiquei com a boca cheia de fungos, caiu-me o cabelo todo da nuca para baixo e tinha imensas dificuldades em comer, porque deixei de produzir saliva, acho que foi menos notada por ele, porque eu não estava sempre deitada e não me impediu, tanto, de tratar dele.

    Sabe, Maria Teresa, acho que é um bocado difícil para ele interiorizar isso, muitas pessoas próximas dele tiveram cancro no curto espaço da sua vida. Para ele, quem adoece, adoece, quase sempre gravemente. Inclusivamente ele, que já passou por um acidente de viação em que esteve em estado grave.

    Beijinhos

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  4. É verdade, Sérgio Figueiredo, mas isso, infelizmente, faz parte da vida de todos nós. Apesar de penoso, não deixa de ser, também um pouco, uma mal necessário, que contribui para a nossa construção enquanto pessoas.
    Beijinhos

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  5. Ainda hoje me contraio sempre que ouço alguém dizer que vai fazer quimio. Apesar de saber que está muito melhorada, a minha memória reporta-me a 1994/95 e a todos os efeitos que a quimio teve na minha mãe. No entanto, para mim a radio é um monstro bem maior, visto que foi esse tratamento que deu cabo da minha mãe...

    No fundo, o J. deve mesmo ter interiorizado alguma coisa. Mas creio que com o tempo e com a tua ajuda ele vai aprender a relativizar as coisas melhor.

    As melhoras do teu torcicolo!

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  6. Assim espero, Naná!
    Obrigada
    Beijinhos

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  7. Doce filhinho mamy, tão pequeno e já sabe quem lhe é tão precioso.
    Beijinhos para os dois <3

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  8. São nesses momentos que nos apercebemos o quanto somos importantes para alguém, tens um grande filho

    Beijoca

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  9. Verdade, Mar e Felina, estes são os momentos em que nos apercebemos que não podemos morrer... também e especialmente, por eles!
    Bjs

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  10. Não conhecia o seu blog. Li o seu post e achei-o marcante. Os filhos interiorizam de formas diversas as doenças dos pais e inquietam-se de tal forma que as reacções, por vezes, são insperadas.
    Numa doença grave da minha mãe durante a minha infancia, eu, como defesa, tornei-me autoritária e protetora com os irmãos, como que a assumir o papel da mãe que não o podia fazer. E era mesmo muito pequenina.
    Bj

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  11. Miú Pimeira,
    É verdade, muitas vezes, as crianças reagem de forma inesperada às doenças dos pais e o mais incrível é quando tomam uma posição protectora em relação a eles, como a Miú em relação aos seus irmãos e, simultaneamente, à sua mãe, e o meu filho em relação a mim. Parece que sentem a necessidade de inverter os papéis numa atitude de "já que não estás capaz de me proteger, agora sou eu que te protejo a ti".
    Bjs

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