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Resquícios da Quimio

Quando fiz quimioterapia, o J. tinha entre um e dois anos. A minha vinda dos tratamentos implicava ter a avó cá por casa a ajudar o pai a tratar de mim e dele, ver-me sempre na cama em sofrimento ou mal-estar, ser a avó a levá-lo ao infantário no dia seguinte e ser ele a ir dar-me um beijinho, tanto de boa-noite como de despedida de manhã.

Ontem, cheguei a casa com um torcicolo tal, que não conseguia fazer nada sem ajuda. E nada, quer mesmo dizer nada, inclusive virar-me na cama. 
A minha dor e sofrimento, assustaram o J.! Ver a mãe deitada, a avó por cá a ajudar-me e o pai a tratar dele sozinho, e também de mim, devem tê-lo reportado para aqueles seis meses, que eu pensava que não lhe tinham deixado grande mossa por ser tão pequenino. Mas, na verdade, eles ficaram lá meios adormecidos e arrumadinhos numa qualquer gaveta do seu ainda pequeno cérebro, mas lá. E resolveram reaparecer agora. 
O J. deu-me muitos beijinhos, só queria a mamã, perguntou-me várias vezes se ainda me doía, deitou-se ao pé de mim a fazer-me companhia, leu as bulas dos medicamentos, queria fazer-me uma massagem, enfim, estava tão desejoso de me ver bem outra vez, que denotava uma aflição pouco normal dada a pouca gravidade da situação.

A quimio é um tratamento doloroso que não deixa só marcas em quem passa por ela, mas também em quem, apesar da tenra idade, a vê acontecer a entes queridos. Malvada (bendita) quimio!

Imagem retirada da Internet

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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