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Orelhudo

Tenho acompanhado a história da LUNA, desde o dia em que o Bagaço Amarelo nos informou que ela tinha desaparecido, até ao dia do seu reaparecimento.
Este desaparecimento fez-me viajar no tempo nove anos, quando o Orelhudo desapareceu.

O Orelhudo era um cão, que me apareceu à porta de casa, quando eu vivia no campo. Chegou com uma coleira de arame, cheio de medo de tudo e de todos, até do ar.
Quando o vi tentei aproximar-me para lhe dar uma festa, mas ele não me deixou sequer chegar perto. Fugiu de mim. Então, resolvi arranjar um recipiente com água e outro com comida, e afastei-me. Fiquei à "coca" para ver se ele ia comer. Foi, mas apenas depois de me ver bem longe. 
Passei a dar-lhe de comer todos os dias, sem me aproximar muito para não o assustar.

Nessa altura, a égua vivia comigo, numa boxe ao lado da casa, o que quer dizer que era eu quem tratava dela, e tratar dela significava, também, limpar a boxe. 
À medida que o tempo foi passando, o Orelhudo começava a arriscar aproximar-se de mim. Mas mal eu pegava na vassoura para varrer a boxe da égua, ele desaparecia. Fiquei a achar que aquele cão tinha sofrido maus-tratos e quem o mal tratava, batia-lhe com uma vassoura. Assim, se ele vinha para o pé de mim, eu largava a vassoura. Até que, ao fim de algum tempo, já lhe conseguia dar festas tendo a vassoura na outra mão. Escusado será dizer, que esta foi uma grande vitória para mim.

O Orelhudo nunca foi meu. Sempre o considerei livre. Nunca o prendi. Achava que ele era o seu próprio dono e que só assim seria feliz. Dava-lhe comida, levava-o ao veterinário para levar as vacinas (coisa que ele detestava, porque tinha que andar de carro e, acho, que esse ódio por andar de carro era porque tinha medo que o abandonasse a meio da viagem), dava-lhe banho, arranjei-lhe uma nova coleira, que não o magoasse, mas que o referenciasse como "cão com dono" a quem o visse a passear pela rua.

Num feriado de Carnaval, saí e só cheguei a casa à noite. Quando ia pôr a chave na porta, vejo o Orelhudo, encostado à porta, com uma pata partida e todo sujo de óleo. Tinha sido atropelado. 
Toca de o enfiar no banco do pendura do carro, que ele detestava, por isso foi o caminho todo a tremer como varas verdes, e ir à procura de hospital veterinário. Nessa altura só existiam urgências nos hospitais veterinários, e só existiam hospitais veterinários em Lisboa. Mas lá fomos nós, eu e ele, num Fiat Uno velhinho, em marcha de urgência até Lisboa.
É claro que gastei uma pipa de massa no hospital, que de barato não tinha nada, mas fizeram-lhe radiografias, ecos aos rins e puseram-lhe uma tala na mão partida. O cão deixou-se tratar lindamente, era muito um querido e percebia perfeitamente que aquelas maldades todas eram para ficar bom. Mais tarde, teve que mudar de tala e foi sempre muito cooperante com os veterinários.

Passaram-se alguns meses até à altura em que tive de mudar de casa. Vendi aquela e fui viver para um apartamento. Levar o Orelhudo para um apartamento sempre me pareceu uma ideia pouco sensata, porque achei que ele não se adaptaria e que tinha o direito de continuar a viver livre, tal como tinha vivido até ali. Deste modo, combinei com o novo dono da casa que eu iria lá todos os dias deixar comida ao Orelhudo, no lado de fora do portão da propriedade. E assim fiz, durante mais ou menos uma semana, porque depois ele deixou de aparecer. Continuei a ir lá, mas a comida mantinha-se intacta. Chamava-o e ele não aparecia. O Orelhudo tinha desaparecido!

Aqui, vem o meu grande arrependimento: não colei papéis à procura dele, não divulguei o seu desaparecimento, não palpei todo o terreno à sua procura, apenas ia lá e chamava-o. Se ele não vinha, era porque já tinha ido para outro lado e, tal como eu, tinha deixado de viver naquela casa. Pensei que o pior que lhe podia fazer era privá-lo da sua liberdade, o que seria inevitável se o fechasse num apartamento.

Este arrependimento persegue-me até hoje. Eu adorava aquele cão, mas em prol de uma liberdade, que se calhar, ele nem queria, acabei por deixar que desaparecesse e perdi-o para sempre.

Ainda hoje, sempre que passo em frente daquela casa, procuro-o com o olhar, mas nunca o voltei a encontrar.


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