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Ar Puro

No carro:

- O que se passa J.? A avó disse que não falaste quase nada, nestes dias.
- Não se passa nada.
- Mas tu és tão falador... E agora quase não falas... Passa-se alguma coisa? Se se passar, sabes que podes dizer, não sabes?
- Não se passa nada!
- Mas sabes que, se se passar, podes dizer, não sabes?
- Sei!
- Falar é bom, ajuda os problemas e as coisas que nos chateiam a irem embora!
- Eu sei!

Alguns minutos de silêncio...

- Eu não estou a gostar da minha vida agora!
- Não? Então? Porquê?
- Este mundo não vai durar muito tempo! O buraco está cada vez maior e as pessoas não se importam...
- Qual buraco? O do ozono? É desse que estás a falar?
- Sim! As pessoas não fazem nada para não estragarem o planeta e, assim, ele não vai durar muito tempo.
- Ainda falta algum tempo para o mundo acabar... E as pessoas, algumas pessoas, já fazem alguma coisa para preservar o planeta.
- Sim? O quê?
- Separam os lixos, inventam carros que não poluem tanto...
- Vamos arranjar um carro desses!
- Ainda são muito caros, senão arranjávamos.
- Nós, pelo menos, separamos os lixos todos!
- Pois separamos! Sabes porque é que é bom separarmos os lixos? Porque se não o fizermos, eles vão para as lixeiras (que são descampados, um grande campo sem nada) cheios de plástico e vidro que demoram centenas de anos a decomporem-se. O plástico, com o calor e a humidade, deita gases prejudiciais ao ambiente. O vidro se não se partir demora muitas centenas de anos a decompor-se.
- E agora já não há lixeiras?
- Há, mas têm menos plástico e vidro, e mais produtos biodegradáveis, como os restos de alimentos.
- Ah, mas nós separamos tudo!
- Vês, já estás a fazer alguma coisa para não estragares mais o ozono!
- Mãe, quero ir viver para o campo na Dinamarca! Vocês estão sempre a dizer que querem ir, mas nunca mais vamos...
- Não é assim tão fácil começar uma vida nova noutro país... Além disso, o pai, aqui, tem um trabalho mais ou menos seguro. Lá, vamos ter que arranjar outros trabalhos, o que é um bocado complicado, porque não sabemos falar a língua.
- Mas falamos inglês. Eles falam todos inglês.
- Mas há trabalhos em que é preciso falar dinamarquês, por isso nós temos muito menos hipóteses de arranjar trabalho lá do que os dinamarqueses ou do que alguém que saiba falar a língua. É difícil e teria que ser uma coisa muito bem pensada e preparada, antes de irmos.
- Então, vamos viver para um campo, aqui mesmo, em Portugal, onde o ar seja mais puro.

[Oh, J., se soubesses como é difícil termos "um ar mais puro" neste Portugal, tão poluído por este (des)governo.... Nem a separação de lixos ajuda a melhorar este ambiente!]

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Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
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No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
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Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
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