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Vou Contar-vos Um Segredo #4

Mas vou dizer muito baixinho, quase em surdina:
Às vezes, vejo a Casa dos Segredos.

Vá lá, não se vão já embora!

Vejo a Casa dos Segredos, numa perspectiva analítica. 
Está melhor assim?
Quero tentar entender o que estão aquelas pessoas a fazer dentro de uma casa, onde vivem às ordens de uma voz, que as manda fazer as coisas mais vis e de baixo carácter, que já pude contemplar num programa de televisão, recebendo em troca a vida enxovalhada nas revistas e troças intermináveis por parte da apresentadora do programa e do púbico em geral. 
Tornarem-se marionetas nas mãos da produção de um programa televisivo, e da opinião pública, em troca das suas vidas desfeitas, é assustador, se atendermos à psicologia da coisa.
Acreditam que, por muito que me esforce, não consigo compreender?
Será que aqueles meninos e meninas acreditam mesmo que vão ter uma carreira brilhante, quando saírem, e  depois de tudo aquilo o que permitiram que lhes fizessem e o que se propuseram a fazer? 
Será que a miragem da fama e do dinheiro é assim tão nítida para os enganar tão bem?
Não, não quero acreditar que seja burrice pura! Não existe gente tão burra a esse ponto!
Se em programas anteriores, acreditei que eram apenas mentes vazias que ali estavam, neste não creio que sejam. Vejo estratagemas demasiado elaborados para mentes vazias e estratégias altamente rebuscadas para um só neurónio.
Não pode ser só burrice. Tem que haver outra coisa mais forte e poderosa. Princípios invertidos, deformações cerebrais, doenças psicológicas ou mentais, qualquer coisa do género...
A burrice, sozinha, não desce tão baixo. É preciso que esteja associada a algo mais para ir tão fundo. Por isso, tem que haver mais qualquer coisa!

Mas a minha análise não se fica só pelos concorrentes do programa... (Já vos tinha dito que gosto de analisar pessoas, não tinha?) Dou-me, também, ao trabalho de tentar analisar os vários apresentadores, os membros da produção e os diversos públicos do programa.

Quanto aos apresentadores e produção, a dúvida que me assiste (gostaram? Esta foi à Hélio no skate!) é o que os motiva a tamanha crueldade. Crueldade com os concorrentes e crueldade com eles próprios. Será SÓ o dinheiro? Se for devem ganhar MESMO muito bem! Se não for... Não sei, desisto!

E os públicos? Sim, os públicos, porque este programa não tem um único público, tem vários.
Tem o público que é fã, que admira os concorrentes, que os defende ou ataca conforme a situação, que compra as revistas e que vive intensamente o que se passa dentro daquela casa. 
E tem o público que passa toda a duração das galas a mandar larachas ou a gozar desmesuradamente, nas redes sociais, com tudo e todos os que por lá passam.

O primeiro público, penso que terá a ver com as suas vidas desenxabidas. Precisam de as ocupar e arranjar algo que as movimente. Estes são os que melhor compreendo. Compreendo mesmo! Acredito que precisem de preencher o espaço vazio que têm nas suas vidas com qualquer coisa, e nada mais fácil do que agarrarem-se às vidas dos outros. Atenção: digo isto, sem, sequer, uma ponta de escárnio!

O outro público, o das larachas e gozos desmesurados, parece-me que a única explicação plausível, que terá para ver todas as galas do princípio ao fim, é a inveja rancorosa de "quem desdenha, quer comprar". 

E aqui, pára abruptamente a minha capacidade de compreensão! 

Se muito dificilmente consegui vislumbrar uma explicação para todas as outras personagens desta história, a inveja das presentes, ultrapassa-me completamente. (E não é que rimei?!)
Teria que voltar ao princípio, e conseguir analisar convenientemente os concorrentes, para que fosse capaz de um estudo aceitável sobre quem os inveja.

Portanto... Fim de análise!

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