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Revisitar o Membro Que Partiu

Já passaram dois meses desde que a égua partiu. O tempo passa a correr. Tenho saudades do cheiro dela... 
Como o das pessoas, o cheiro de cada cavalo é único. Uns cheiram mais a palha, outros ao couro dos arreios, outros a ração, outros a feno, outros ainda a estrume. E há os que cheiram a tudo isso junto! 
A minha égua cheirava tanto... a ela. 
Se me vendassem e me dessem 100 cavalos para cheirar, acredito que reconhecê-la-ia imediatamente. O cheiro da sua pele era um, o da respiração outro, mas completavam-se num único, no DELA.

Deixei as botas que calçava no dia em que ela me deixou, sujas na varanda, durante quase todo este tempo. Só para lhes sentir o cheiro, o dela, quando por lá passava. Queria perpetuar a sua presença através do cheiro. Queria senti-la ainda viva, ali, nas botas.

Há pouco, limpei-as e calcei-as de novo. Desde então, não calço outra coisa.

E há pouco também, comecei a sentir uma enorme vontade de voltar a montar a cavalo. 
Já não monto há séculos. Desde que ela deixou de poder levar-me no dorso, montei alguns, poucos, cavalos. Nessa altura, fazia parte do meu trabalho montá-los. Nenhum deles era como ela, com nenhum consegui uma conexão tão perfeita: Onde me encaixasse na perfeição; onde a minha mão fosse a boca dele; onde os seus movimentos ditassem a vontade das minhas pernas; onde conseguisse prever tão bem qual a folhinha ao vento que o ia fazer assustar-se, ou o sítio por onde não iria querer passar.

Quando deixei de trabalhar com cavalos, deixei também de montar. Apesar de ter a  possibilidade de o fazer, nunca mais quis. 

Agora, voltei a querer. Não sei bem porquê. Talvez por ela já não estar cá e eu já não sentir que estou a trair a nossa amizade, construindo amizade com outros. Não sei. Talvez seja uma razão parva, mas penso que é um pouco por isso.

No fundo, acho que tenho é saudades de a montar a ela; que quero encontrar, noutro cavalo, a sintonia que nós as duas conseguíamos. 
Sei que não é possível, mas ando tentada a experimentar. Para revisitar o tempo em que ela estava bem e eu sempre com ela. Para revisitar a miúda dos cavalos que deixei lá bem atrás. Para revisitar a égua que era já tão parte de mim, quanto um braço ou uma perna, e que levou para longe um pedaço deste meu coração.

Comentários

  1. Creio que ela não se ia sentir traída por voltares a montar, mas sim muito honrada!

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  2. quando algo que era parte de nós, que nos completava de sentimento, de prazeres, que mexe connosco quando pensamos neles, que partiram, e nos deixam um espaço vazio, tudo deixa de ter força para nos motivar... não é a mesma coisa mas...
    embora nada seja insubstituível, e falando agora neste teu post, na tua égua, sou da opinião que deves voltar ao ambiente, ao prazer de montar, e dares-lhe a alegria de sentir que não perdeste o muito que ela te deu a ti.
    dedica-lhe essa tua vontade... e volta a montar.

    até

    ResponderEliminar
  3. Comecei a montar há muito pouco tempo (mais vale tarde do que nunca)e já gosto tanto do Bonito!Sei que nunca me irei afeiçoar a ele com o amor que revela no seu testemunho mas compreendo-a...senti isso por outros animais ao longo da minha vida (já bem longa)
    Abracinho meu!

    ResponderEliminar
  4. preciso fazer uma rectificação textual, faltou completar a frase...

    "embora nada seja insubstituível"... nada é igual ao que foi mas, e falando agora...

    agora sim, peço desculpa.

    bom fim de semana


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  5. Naná,
    Talvez...
    Acho que eu é que me ia sentir traidora.
    Penso que agora, já não tanto.
    Bjs

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  6. Maria Teresa,
    Os cavalos são animais maravilhosos!
    Dão-nos sempre mais do que nós lhes conseguimos dar a eles!
    Não perca essa sua ligação com o seu Bonito, pois ela vale ouro!
    Bjs

    ResponderEliminar
  7. Sérgio Figueiredo,

    Rectificação registada! :)

    É tão verdade o que diz...E bonito...

    Irei voltar a montar, um dia, mas tenho que me dar mais um tempo. Preciso de fazer o luto, tanto da morte dela, quanto da morte da miúda que eu fui um dia. E renascer um pouco diferente do que fui: mais madura, menos pura, talvez mais conhecedora.
    Sinto a necessidade de completar o fecho de um ciclo, para poder começar outro. A minha volta aos cavalos tem que ser comigo inteira, senão não será genuína.
    Bjs

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