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Escarafunchar as Entranhas

Ao longo dos anos, tenho visto crescer em mim um fascínio pelo ser humano. Se há alguns anos, era muito penoso relacionar-me com pessoas, esta tendência tem vindo alterar-se lentamente, mas mesmo assim, a alterar-se.

Para mim, a relação com os animais é mais do que um simples contacto entre Homem e Animal, pois eles são a minha ligação à terra, são a minha fonte de paz e são quem me faz sentir em plena comunhão com a Natureza e com a vida.
Nunca tive muita necessidade em me ver cercada de pessoas, preferia tê-las suficientemente longe para que não importunassem a minha paz com a sua desconcertante complexidade.

Sinto-me em casa no meio de um pasto rodeada de cavalos, ou dentro de uma boxe, deitada na palha, desfrutando o silêncio que é apenas interrompido pela respiração do animal e pelo bater dos cascos no chão, num enxotar de moscas constante. Vivo um passeio a cavalo pelos montes, como quem tem apenas aquele instante para respirar, e respiro, inspirando a beleza que os meus olhos vêem e expirando todas as enfermidades da vida.
E o cheiro, oh o cheiro, sempre o cheiro, dos cavalos que me inebria de felicidade e me transporta para o imaginário da liberdade plena!
Quando os cavalos eram a minha profissão, ficava horas colada aos seus corpos, abraçava-os de tal forma que conseguia ouvir-lhes o coração e sentir-lhes o cheiro em simultâneo... Não dava pelo tempo passar... Sentia-me bem ali e ali pertencia...

Depois de deixar o trabalho com cavalos, tive um emprego perto do Campo Pequeno e, no caminho para lá, tinha que passar pela praça de toiros. As quintas-feiras eram dias de touradas, e à hora que eu passava, já lá estavam os camiões com os cavalos dos toureiros. O ar ficava inundado com o cheiro dos animais, não sei se toda a gente o sentia, mas eu sentia-o tão bem ao ponto de me saltarem lágrimas dos olhos perante um odor que, para mim, é de liberdade total, à qual eu já não pertencia, à qual eu já não pertenço...

Não sei se conseguirei descrever por palavras o que é praticamente isento de palavras, mas o relacionamento entre mim e os animais, por não ter palavras, é essencialmente sensitivo. Posso dizer que falar é supérfluo e os abomináveis mal-entendidos não existem, tudo é claro, limpo, sincero, profundo... Relacionamentos destes com pessoas são raros, pois é preciso termos uma proximidade e intimidade muito grande com alguém, para que consigamos atingir um grau semelhante ao de quase telepatia. 

Talvez desde o momento em que fui mãe, ou talvez desde o momento em que tive que me afastar dos cavalos por ter mudado de profissão (não sei bem qual o momento preciso, mas penso que estes dois foram marcantes) comecei a interessar-me pelas pessoas, senti necessidade de me aproximar delas e de as estudar.

Hoje, estou mais próxima das pessoas e mais longe dos animais, não sei se isso será bom, porque não continuo a ver as pessoas como melhores do que os animais, apesar de já conseguir encontrar nelas mais algum interesse.

Enquanto os animais são precisamente aquilo que parecem, as pessoas parecem sempre diferentes do que são. A personalidade dos animais está estampado neles, e é espelhada em nós, nunca é camuflada por acções ou atitudes propositadas para nos confundir. A personalidade das pessoas está escondida por debaixo de várias capas. Ao passo que, vemos os animais como são, às pessoas, temos que as descobrir no meio de um amontoado de máscaras complexas e ambivalentes.

Se, há uns anos, eu não me aproximaria das pessoas com medo do que ia encontrar, hoje eu aproximo-me intencionalmente delas, só para encontrar o que está escondido, só para perceber porque está escondido, e gosto, gosto muito, de lhes escarafunchar as entranhas da alma para depois, no final, encontrar a essência, que é, enfim, nada mais do que o animal que todos temos em nós.

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