Avançar para o conteúdo principal

Tóni

António nasceu numa pequena aldeia perto de Elvas. Os seus pais tinham um pedaço de terra de onde tiravam o sustento de toda a família. 
A contar com António eram oito a viver numa pequena casinha branca, rodeada de planície.

António frequentou a escola até à quarta classe. 
Mal acabou o ano lectivo, começou a ajudar os pais a pastar as ovelhas, a tempo inteiro.

Levantava-se às cinco da manhã, pegava no canito ruivo e lá iam os dois, planície fora, seguidos por vinte ovelhas lãzudas.
Ficava horas a ver as ovelhas pastarem. Sentava-se sempre no mesmo pedregulho, com o cajado na mão, a vê-las comer aquele pasto amarelo.
Ao mesmo tempo, sonhava... Um dia, iria sair daquele Alentejo sem fim. Iria ser rico e poderoso, como o Ti Manel da casa grande, lá quase no fim da aldeia. Teria empregados para tudo e só bastaria mandar, que eles fariam tudo o que ele quisesse. Não precisaria de se levantar tão cedo, nem de andar a pastar aqueles novelos de lã com pernas. 
António sonhava alto, tão alto, que, por vezes, esquecia-se dos animais e, se não fosse o olhar atento do canito, eles dispersavam de tal forma que depois muito dificilmente os conseguiria juntar novamente. Bendito canito que o acompanhava, e lhe obedecia como ninguém!

António cresceu, tornou-se um homem, deixou de ser o António sonhador, para dar lugar ao Tóni amargurado.
Tóni já não sonhava. Agora, lutava. Mas lutava pela vida que sempre sonhara.

Deixou o Alentejo e aventurou-se lá para os lados de Lisboa, a capital. 
Agora, vivia perto da capital e mais perto dos sonhos, que pretendia tornar realidade. Trabalhava numa fábrica de cimento, onde respirava pó cinzento, doze horas por dia.
À noite, cuspia uns escarros cinzentos e doía-lhe o peito quando, finalmente, tomava a posição horizontal. Por vezes, junto com o cinzento, via uns bocadinhos vermelhos de sangue. Era nesses momentos, que se lembrava das ovelhas, e dos sonhos...

Trabalhou arduamente naquela fábrica, deu anos de vida ao pó cinzento. 
Mas, ao fim de vinte anos a respirar pó, conseguiu amealhar uns bons tostões.

Largou o trabalho e dirigiu-se às Finanças. 
- Quero ser patrão. O que preciso fazer? - perguntou à rapariguinha, ruiva como o seu antigo canito, que estava do outro lado do balcão.
- Patrão? - perguntou a rapariguinha.
- Sim, patrão. Quero abrir uma churrasqueira minha, assar frangos para vender para fora, ter empregados, contabilidade, etc. Enfim, quero ter um negócio meu!
- Ah! O senhor quer ser empresário?! - diz a rapariguinha, enquanto sacode o cabelo ruivo.
- Sim, é isso!

Tóni abre a churrasqueira.

Agora, é um homem realizado. Tem o seu próprio negócio, vende centenas de frangos por semana, tem uma loja toda catita e tem empregados... 
Já passaram por lá uns tantos... Na sua maioria brasileiros. Uns incompetentes, que não querem trabalhar! Preguiçosos até dizer chega! 
O último que arranjou, Jéferson, até que não é mau de todo... É lento, é verdade, e é um pouco calado demais, mas antes assim, pelo menos não lhe responde com maus modos, quando ele o manda trabalhar. 

Jéferson fá-lo lembrar-se do canito ruivo, que o acompanhava quando pastava as ovelhas... É fiel como o cão, não resmunga e, se ele quiser, pode enxotá-lo à vontade, tal como fazia ao canito. Jéferson é seu, é sua propriedade, ou não fosse ele o patrão e o outro, o empregado.

Agora sim, agora é o patrão, que sempre sonhou quando era menino!
Depois de tanta luta, e tanto pó respirado, finalmente, sente-se um verdadeiro Ti Manel! Os seus pais, se ainda fossem vivos, haviam de se orgulhar dele!

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!