Avançar para o conteúdo principal

Como Despolitizar uma Criança de Oito Anos?

O J. vai para a escola falar de política.

Hoje, pediu à professora para lhe perguntar quem eram os ministros: das Finanças; dos Negócios Estrangeiros; da Economia; o Presidente da República e o Primeiro-ministro.

Ela perguntou-lhe e ele respondeu:
- Vitor Gaspar. Paulo Portas. Álvaro Santos Pereira. Cavaco Silva. Passos Coelho.
Uma colega perguntou-lhe:
- Como é que tu sabes isso tudo?
- Sei! - respondeu orgulhoso.


- Os meus colegas nem sabem o que são as Finanças! - disse-me no carro, a caminho do supermercado, como se fosse uma enorme gaffe da parte dos colegas.
- E tu sabes?
- Sei. São os impostos.
- Sim, mais ou menos... São os dinheiros do Estado.

Mas tamanha sabedoria também é invadida por dúvidas... Como esta:
- E o Relvas, mãe? É Ministro de quê? - perguntou-me. 
Disse-lhe que era Adjunto dos Assuntos Parlamentares. 
- Adjunto? - achou pouco.
- Sim, acho que é adjunto!

A cabecinha dele deve ter ficado a matutar naquilo...
"Como é que um ministro, de quem se fala tanto, é só Adjunto? Devia ser mais importante, não? E, se é só um adjunto, porque lhe dão tanta importância?".

Durante o jantar, falou do Orçamento de Estado e do IRS, como qualquer português indignado e, maior de idade.

De vez em quando, inventa letras para músicas conhecidas a desancar nos ministros e na política do governo actual. É um fã ferrenho das Mixórdias de Temáticas do Ricardo Araújo Pereira, que ouve em sessões contínuas e que imita na perfeição, dizendo o texto quase como se o estivesse a ler e reproduzindo com mestria as vozes das personagens do Ricardo...

Quer-me parecer que estou a criar um pequeno, grande, revolucionário... Ainda estou na dúvida se isso será bom ou mau...

Agora digam-me, por favor: Como despolitizar uma criança de oito anos?

Mensagens populares deste blogue

Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

Por momentos, desvio o olhar dos livros para perceber o que se passa à minha volta. Entram e saem pessoas do supermercado. Há um homem que passa de guarda-chuva em punho como se fosse uma…

Marcadores: Capítulo 4

Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim. É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou.  - Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora. - Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do li…

Marcadores: Capítulo 1

Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo. Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida. Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sent…

Marcadores: Capítulo 3

O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti. Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor. - É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir? - Sempre. Quase todos os dias no verão. - Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados. - Não…