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O Isqueiro

Já disse aqui que consigo ser extremamente antipática. Também já disse que tenho uma costela malévola. Talvez não tenha sido por estas palavras, mas mesmo que tenha sido por outras, acho que já deu para entenderem que às vezes sou um bocadinho bruta, ríspida, dura, ou má como as cobras.

Na adolescência, quando comecei a fumar, havia imensos miúdos na mesma situação que eu, que começavam a fumar. Porque achavam giro, porque era cool, porque pensavam que assim se integrariam melhor no universo dos grandes. 
Uns, como eu, tinham isqueiro e compravam tabaco, ou seja, alimentavam o vício de maneira autónoma. Outros, achavam muito mais fixe andar ao crava. 
Os cravas cravavam tudo, desde um cigarrito aqui e acolá, até ao lume para acenderem o cigarrito cravado. Por vezes, gamavam o isqueiro, que lhes emprestavam, para o perderem uns minutos mais tarde e tornarem a ter que cravar lume ao próximo fumador autónomo.
Os cravas sempre me irritaram solenemente. Porque eram cravas por opção, porque escolhiam viver numa dependência permanente dos outros...

Eu, quando irritada, era má. Ainda hoje sou, não tanto como naquela altura, mas, de vez em quando, a costela malévola vem-me pedir satisfações, e eu... satisfaço-a.

Cheguei a ser conhecida no meu círculo de amigos como aquela a quem só se pede cigarros ou lume se não houver mais ninguém nas redondezas. À pergunta "dás-me lume?", atirava vezes sem conta um redondo "não!". Em certas circunstâncias, acompanhava-o com um "vai  comprar um isqueiro!". 
Detestava mais que me cravassem lume do que se me cravassem cigarros. Ficava a ferver por dentro. Achava que, se queriam ser fixes e esfumaçar como homens, tinham que pelo menos ter um isqueiro.

Ontem, cravaram-me lume, como nos velhos tempos. 
Hoje, cravaram-me lume, como nos velhos tempos.
Dei-lhes, ontem e hoje.

Mas se amanhã, alguém me voltar a melgar e me vier pedir lume outra vez, não sei se conseguirei segurar o meu "não!" redondo. E aviso já, esta minha costela malévola, anda de novo, e violentamente, a palpitar e, quando ela anda assim, eu costumo transformar-me num bicho mau!

Da Net, da net...

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