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"Magalhões"

Imagem retirada da Internet

Sempre fui muito renitente em dar objectos ligados às novas tecnologias ao J. A Playstation entrou cá em casa no ano passado, quando o J. fez 7 anos. (Não, não sou nenhuma pseudo-intelectual, apenas acho que jogos de computador, especialmente para crianças, não são saudáveis!)

Ao fim de algum tempo de o meu pai (ele é informático) se ter oferecido para lhe dar uma, lá cedi. 
Pensei "pronto, ok, o miúdo já está grandinho, os colegas não têm outros assuntos de conversa a não ser jogos de Playstation e futebol, como o miúdo é um bocado excluído, vamos lá ver se dando-lhe informação sobre os temas, ele conversa mais com os amigos e se sente mais feliz..."

O meu pai ofereceu-lhe a Playstation e nós demos-lhe uma caderneta de cromos de futebol. Não foi em simultâneo, mas foi mais ou menos na mesma altura.

A caderneta foi a loucura. Num instante, o J. ficou a saber os nomes de todos os jogadores de futebol, os clubes a que pertenciam e as posições em que jogavam. Trocava cromos na escola e dominava as conversas com os amigos sobre o tema. 
A Playstation, mesmo com o uso reduzido aos fins-de-semana, foi-se impondo. 
Hoje, tenho um filho viciado nela e sempre desejoso que cheguem os fins-de-semana para jogar. MEDO!!!
Luto diariamente contra este vício malvado! (Talvez esteja a pagar por o ter impedido de jogar até aos 7 anos...)

Quando a escola começou, comprámos-lhe o "Magalhões", como ele lhe chamava. Achávamos que podia ser útil para a escola, que o ia usar para escrever, para pesquisar assuntos diversos na Internet, enfim, que seria uma boa ferramenta de apoio ao estudo. 

Estávamos errados! O "Magalhões" veio cheio de jogos didácticos, como lhes chamam, apoiam o estudo incentivando os miúdos a passarem de nível, a querem aprender não pelo prazer de aprender, mas pelo de chegar mais longe no jogo. Estes jogos, como quaisquer outros, oferecem a recompensa fácil e efémera do nível passado, da vitória simplista, do prazer imediato. 

O deleite do conhecimento não é nada disso! O ensino não pode ser nada disso! 
Atingir o conhecimento, passar pelo processo de aprender, não é fácil, não é imediato e não dá prazer efémero! 
A recompensa de aprender é aprender. Descobrir coisas novas, saber mais, estar mais próximo do conhecimento, obter ferramentas para se chegar mais longe, para pensar, para surgirem novas dúvidas, para se querer saber ainda mais. 

O "Magalhões" não passa de mais uma forma de se fingir que não há matérias chatas; de se hipnotizar miúdos irrequietos; de se conseguir enfiar mais alunos por turma, porque estão todos "concentradíssimos" a olhar para um monitor e extremamente motivados a passar um nível qualquer, não se importando sequer com o tema do jogo; de se enganar alguns professores (aqueles que não conhecem a arte de ensinar) que ficam a pensar que são óptimos professores e que ensinar até é tão fácil, que qualquer um o consegue fazer.


Não há facilidades nem na arte de ensinar, nem na de aprender. As duas implicam esforço, dedicação, suor, lágrimas, matérias chatas, tempo, muito tempo...

Só que no final de tudo isto, há o verdadeiro prazer do conhecimento (tanto o que se oferece, quanto o que ganha): 
há o espírito inquieto; há sorrisos, gargalhadas até; há deleite prolongado; há vida vivida; e há sabedoria...
E é por não ser fácil chegar-se à recompensa, por se ter que penar muito para lá chegar, que sabe sempre tão bem, quando se aprendem coisas novas!

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