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Contar ao J. que a Heguita Morreu...

Foi hoje.
Felizmente, ele não estava cá quando tudo aconteceu... Tive tempo para chorar, gritar, culpar-me, bater-me, digerir o assunto, serenar, pensar... Não precisei de esconder as emoções, porque tenho estado sozinha, e por isso, acho que as fui conseguindo resolver melhor...
Quando ele chegou, matámos saudades, conversámos um pouco e depois contei-lhe. 
Primeiro, não lhe contei da injecção, disse-lhe que ela caiu e morreu. Depois, fui invadida por um sentimento de culpa por lhe estar a ocultar uma parte importante da história, que mais cedo ou mais tarde, ele ia acabar por saber, e ia saber juntamente com a sensação que eu lhe tinha mentido. Contei-lhe da injecção. Chorou. E eu fui invadida por um sentimento de culpa por lhe estar a contar uma parte da história tão dolorosa. Abraçou-me, deu-me beijinhos, perguntou-me se fiquei muito triste, se chorei, porque tivemos que lhe dar a injecção e porque é que ela não podia ter ficado deitada mas viva. Expliquei-lhe que os cavalos não podem ficar tanto tempo deitados e que se ela ficasse mais aquela noite assim, ia acabar por morrer na mesma e ia sofrer muito mais. Acho que compreendeu... 
Perguntou-me:
- Não vais ter outro cavalo, pois não?
- Não.
- A Heguita era especial, não era? Ela era a tua amiga e o teu único cavalo, não era?
- Era.
- Pois, eu sei!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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