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O Pontapé

Imagem retirada da Internet
No parque de estacionamento de um centro comercial, quando nos dirigíamos para o carro, olho para o J. e ele está com aquela cara de aflito...
Entramos no carro e pergunto-lhe:
-Que se passa?
-Não viste? Aquela senhora deu um pontapé à filha!
-A sério? Não?!
-Deu, eu vi! Não se dá pontapés aos filhos!
-Se calhar foi só um toquezinho com o pé no rabo dela...
-Não, foi um pontapé! Ela ficou a chorar!
-Não, ela já estava a chorar quando passámos por elas, eu reparei nisso!
-Mas ela deu-lhe um pontapé e não se dá pontapés aos filhos!
-Pois não, mas não deve ter sido com muita força... A menina caiu?
-Não! 
-E não a estamos a ouvir chorar muito, pois não?
-Não, mas tu não fazes nada?
-Não me posso ir lá meter... Só se a mãe a tivesse magoado muito...
-Ias? Se ela a tivesse magoado muito?
-Claro que ia, mas não me parece que seja esse o caso... É muito complicado metermo-nos assim nas relações entre pais e filhos...
-Se a menina tivesse ficado muito magoada, ias lá, não ias?
-Sim, já te disse que sim! Claro que ia!

Pareceu-me que ficou mais descansado, apesar de um pouco decepcionado de a mãe dele não ser a corajosa defensora dos oprimidos que ele desejaria. 
Confesso que fiquei um bocadinho envergonhada por o ter decepcionado e senti-me um tanto ou quanto cobardolas, mas como poderia eu ir meter-me naquela desavença entre mãe e filha sem ter visto o que se passou?

Noto que há uma grande agressividade em certas relações pais/filhos, mesmo sem lhes tocarem há pais que reagem com demasiada agressividade às birras dos filhos. Esta chega a afectar até quem apenas a presencia. Afecta-me a mim, e pelos visto, também afecta o J.

Às vezes, tenho um medo secreto que a minha falta de paciência, em determinados momentos, me torne assim...

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