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Pirilampo Mágico

Já disse aqui que não sou grande adepta de se fantasiar demasiado a realidade às crianças, que não gosto de mentiras, nem das mais caridosas, mas quando o meu filho esteve entre a vida e a morte, deitado numa cama de hospital com dores terríveis, que lhe levaram, durante aquele duro período da sua curta vida, o sorriso permanente que o caracteriza, fantasiei e tentei arranjar um motivo, uma fé ou uma crença para que ele não perdesse a esperança de que ia ficar bom outra vez. Esse motivo, fé e crença, encarnaram no Pirilampo Mágico.

O J. sempre sentiu um grande fascínio pelos Pirilampos, talvez por terem a palavra "mágico" no nome, talvez porque são uns bonequinhos simpáticos, não sei. 

Quando vim a casa pela primeira vez, desde que ele deu entrada no hospital, tentei levar-lhe referências positivas da sua vida normal, numa tentativa de recuperar o meu sorriso preferido, o dele. 
Peguei no Rafa, que é um boneco de pano que dorme com ele desde que o comprei (engraçado, numa campanha de uma instituição de solidariedade, penso que da Aldeias SOS), nalguns brinquedos e no Pirilampo Mágico.
No hospital, disse-lhe que ia colar o Pirilampo à cama para que o ajudasse a ficar bom mais depressa, porque a razão dos Pirilampos serem mágicos é ajudarem as crianças doentes a ficarem boas. 
Quem me conhece sabe que não sou nada destas coisas, mas naquele momento valia tudo, e de tal maneira, que até cheguei a rezar. Digo isto sem quaisquer problemas que me julguem incoerente. Não acredito em Deus, bruxarias, espíritos, ou coisas do género, mas só quem já sentiu a dor de ver um filho a fazer equilibrismo na linha que separa a vida da morte, pode compreender que numa situação destas mandamos tudo às aranhas, princípios e convicções incluídos, e recorremos a qualquer coisa numa tentativa de os salvarmos.
Foi o que aconteceu naquele momento e funcionou tão bem que, quando regressámos a casa, ele ficou preocupado por termo-nos esquecido do Pirilampo no hospital e só sossegou quando lhe disse que ele ficou lá para poder ajudar a criança que, de seguida, se iria deitar na sua cama.

Contei este episódio a uma amiga que, amorosamente, lhe ofereceu uma caixinha cheia de Pirilampos, que ele adora. 

Ontem, ele trouxe para casa mais um, que comprou à professora. Substituiu o que tinha na sua cama e, recorrendo a um que tinha na caixinha, pôs dois na cabeceira da nossa cama, um no lado do pai, outro no meu lado, para nos proteger das doenças.

Hoje, a criança que há em mim sente-se melhor! 
E não é que funciona mesmo?!

O meu
O do pai


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